[Conselhosmulherbr] Feminismo de periferia encontra na arte sua vez
e sua voz
SPMULHERES - CNDM - Conselho Nacional dos Direitos da Mulher
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Quarta Janeiro 13 17:15:30 BRST 2016
Feminismo de periferia encontra na arte sua vez e sua voz
São jovens negras, brancas, jovens,
jornalistas, designer, idosas, mães de outras meninas; gostam de
fotografia, balé, funk, teatro, e descobriram na arte, por meio do
coletivo “Nós mulheres da periferia†um meio de desafiar a dominação
patriarcal nas bordas das metrópoles
por Congresso em Foco
| 11/01/2016 17:46
CATEGORIA(s): NotÃcias
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Por Inês Castilho*
Jessica e sua mãe, Luzia Moreira
Passava das 22 horas quando saÃmos da comedoria do Sesc Pinheiros,
cedendo à insistência de uma funcionária. Descemos devagar e fomos indo
pela noite até a estação do metrô, trocando as últimas ideias. Seriam as
primeiras na famÃlia a ter formação universitária? Quanto tempo
levariam para chegar em casa, com quantas baldeações? Que som curtem?
Assim fiquei sabendo que são as primeiras a “atravessar a ponteâ€. Que entre seus pais há porteiros, vendedor, um metalúrgico; que as mães foram empregadas domésticas, comerciária, operária, costureira – e todas praticamente pararam de trabalhar
ao se casar ou ter filhos. Que gostam de tudo quanto é tipo de som,
como só havia de ser com a diversidade que caracteriza as mulheres da
periferia.
“Somos negras, brancas, jovens, idosas, mães de outras meninas.
Gostamos de fotografia, balé, funk, teatro. Na entrevista de emprego, o
local onde moramos cria constrangimento. ‘Sim, tomo ônibus. Trem. Dois
metrôs. E ônibus de novo.’ No happy hour, é comum escutar: ‘Lá entra
carro? Essa hora é perigoso. Quer dormir na minha casa?’. A resposta é
não. SaÃmos cedo, voltamos tarde, mas sempre voltamos. Trabalhamos
perto, trabalhamos longe, dirigimos carros, usamos ônibus. Somos várias,
diferentes histórias, o mesmo lugar. É impossÃvel nos reduzir a um
estereótipo.â€
É como se retratam, em seu Manifesto, as jovens do coletivo Nós, mulheres da periferia –
nove mulheres, oito jornalistas e uma designer de profissão, as
primeiras a exibir um diploma universitário na famÃlia. São elas: Bianca
Pedrina, 31 anos, de Carapicuiba (Grande SP); Reginay Silva, 27, de
Cidade Tiradentes, Zona Leste; LÃvia Lima, 28, de Artur Alvim, também
ZL; Aline Kátia Melo, 32, do bairro Jova Rural, na Zona Norte – com quem
consegui conversar – mais Jéssica Moreira, 24, de Perus, Zona Noroeste;
Semayat Oliveira, 27, da Cidade Ademar; CÃntia Gomes, 32, do Jardim
Ângela e Mayara Penina, 25, de Paraisópolis, os três da Zona Sul; e
Priscila Gomes, 32, da Vila Zilda, Zona Norte. “É difÃcil compatibilizar
nossas agendasâ€, explicaram.
“Nosso desafio é problematizar. A grande mÃdia massifica, cria
estereótipos, nos coloca em meia dúzia de caixinhas e pra cada assunto
escolhe uma delas. Mas a gente é múltipla, não dá pra restringirâ€,
afirmam.
Conheceram-se no Blog Mural, site criado em 2010 para fazer a
cobertura da periferia evitando os estereótipos com que os moradores das
bordas da metrópole são tratados pela velha mÃdia. Mas foi justamente
num veÃculo dessa mÃdia que o grupo se lançou, ao ter seu artigo “Nós, mulheres da periferia†publicado na seção Tendências/Debates da Folha de S. Paulo na
semana do Dia Internacional da Mulher de 2012. “Um texto baseado
unicamente em nossa experiência, vivência, cotidianoâ€, e escrito a partir do estÃmulo da editora do blog, Izabela Mói, “até hoje nossa madrinhaâ€.
A repercussão surpreendeu: o artigo foi citado em saraus da
periferia, marcado em posts, receberam cartas… Perceberam então o
tamanho do buraco na representatividade dessas mulheres, que vieram
preencher. “Entendemos que conhecer o funcionamento da mÃdia, sermos
mulheres, jornalistas e periféricas nos trazia a partir dali um desafio e
o compromisso: ocuparmos o vazio latente que o primeiro artigo nos
comprovou existirâ€, considera Semayat Oliveira em entrevista à revista Forum.
Mais um ano até que se organizassem num coletivo e outro para construÃrem o site e lançarem o grupo, na Ação Educativa, em meados de 2014. “O quanto somos pretas†foi outro texto com que marcaram essa fase de sua trajetória.
Entrevistas
Já então eram frequentemente chamadas a dar entrevistas, participar
de debates, produzir conteúdo. “Ocupar os lugares de falaâ€, como
afirmam. Acabavam de realizar a campanha #eumulherdaperiferiapelas redes sociais, que rendeu outro belo texto.
“Descobrimos que tem mais mulher subindo a rua correndo depois
das 22h. Que sua mãe não inventou a ideia de te esperar no ponto de
ônibus. Que não somos a única contorcionista do ônibus em horário de
pico.â€
“Que tem muito mais mulher poeta do que imaginamos na quebrada.
Mulher puxando samba em roda de bamba no bar ao lado. Que falar o real
nome do bairro onde moramos não é problema algum. Admiramos as tias
sentadas em frente de casa conversando. Falando alto na busca por
moradia, saúde, educação.â€
Uma googleada no nome do coletivo é o suficiente para vê-las surgir no Outras Palavras, Carta Capital, Forum, SP Cultura, revista Serafina, Jornal Futura, Rebelião JornalÃstica e ainda, ao realizarem a instalação QUEM SOMOS [POR NÓS], pelas emissoras de tevê SP TV, TV Gazeta, TVT e TV Brasil.
A exposição, que abriu em 21 de novembro e foi até 17 de dezembro
passado no Centro Cultural da Juventude, Vila Nova Cachoeirinha (ZN),
foi até aqui o ponto alto da missão que se atribuÃram de dar voz à s
mulheres da periferia. “A gente não tem ideia do que é capaz. Não
sabÃamos como fazer, mas acabamos por nos tornar oficineiras, curadoras
da exposição.â€
Realizada com recursos do VAI (Programa para a Valorização de
Iniciativas Culturais), da prefeitura de São Paulo, a instalação “usa a
fala das mulheres como elemento artÃstico†e foi criada de forma
coletiva durante oficinas realizadas em diferentes bairros das
periferias de São Paulo.
Novelas
“Propusemos oficinas sobre mÃdia e mulher da periferia, em seis
regiões. Levávamos trechos de novelas, capa de revista, jornal pra
debater com as mulheres, em grupos entre 15 e 40 mulheres, dos 17 aos 90
anos. QuerÃamos saber como se veem, e muitas vezes era diferente do que
imaginávamos. Veem-se com muita garra, muito trabalho, mas não se
consideram vÃtimas, embora sejam retratadas como tal. O mais incrÃvel
foi no dia da exposição, quando olhavam as próprias imagens exibidas, e
se sentiam importantes. Essas mulheres nunca tinham tido um espaço de
reflexão de forma amorosa.â€
São narrativas femininas que vão do Campo Limpo a Perus e Guaianases.
“Ser mulher na periferia, uma mulher negra, é sempre estar armada, com
uma voz extremamente firme, se impondo pra ser respeitada. Porque com
sorriso entende-se que a gente está fácil, querendo dar.†Essa é a fala de Manoela Gonçalves, criadora da Casa das Crioulas, moradora de Perus (Zona Norte).
“A gente sofre muito preconceito e discriminação, e isso é muito
difÃcil de ser combatido pela gente, que mora na periferia. Porque até nós falamos ‘ah, só podia ser da Zona Leste, só podia ser de baianases, quase sempre de forma pejorativa’.â€
Desta vez, elas foram para o centro do debate. Juntamente com coletivos que usam o grafite, a pintura, a poesia, a dança, o Nós, mulheres da periferia vem concorrendo para que as bordas da cidade, sempre silenciadas, se façam ouvir.
Quando discute feminismo negro e periférico, já não é mais possÃvel
para a grande mÃdia deixar de escutá-las. Reportagens nas revistas Marie Claire e Época, e no Estadão, que elas trazem à mão, confirmam.
“Nosso papel é levar consciência, porque esse discurso feminista não
chega na periferia. A gente desbravou esse espaço, pois ele igualmente
não chegou até nós. Quando a gente dá voz a uma mulher invisibilizada,
isso é feminismo.â€
Afinado com os novos tempos, o filme “Que horas ela voltaâ€, de Anna
Muylaert – premiado nos festivais de Sundance e Berlim e indicado a
representar o Brasil no Oscar – tem como protagonistas uma empregada
doméstica e sua filha, que almeja uma carreira universitária. O texto de Jéssica Moreira, do Nós,
relatando a visão que tiveram do filme, ela e sua mãe, empregada
doméstica que, como a protagonista, trabalhou a vida inteira para que
ela pudesse estudar, bombou nas redes sociais. A coincidência dos nomes,
o dela e o da filha, foi o toque mágico de realismo.
Ponte
“Foi um ano de crescimentoâ€, consideram, ao falar do trabalho que
resultou na exposição. “Aprendemos muito, pois são realidades muito
diversas. Nossa geração atravessou a ponte, fez universidade, e com isso
a gente muitas vezes não consegue pisar o próprio território. Foi muito
bom nos dedicarmos a conhecer essas mulheres, ir lá, estar na fonte.â€
Agora, acabam de ser premiadas em edital de mÃdias livres do
Ministério da Cultura. “Estamos top no rolêâ€, diz alguém, e rimos muito.
“Com o prêmio vamos reformular o site, reinvestir no coletivo. Talvez
comprar câmeras, não usamos nem 10% do material gravado para a
exposição, pensamos fazer um documentário. Vamos voltar nosso olhar para
as mulheres não organizadas da periferia, voltar pra base. Se o pé não
estiver no território, nossa fala não vai representar ninguém. Os
movimentos sociais e sindicais falam para convertidos, queremos olhar
para mulheres que não têm esse discurso.â€
O coletivo foi o primeiro a entrevistar as secundaristas que recentemente ocuparam suas escolas.
“Dá muita alegria à gente, que estudou em escola pública da periferia,
ver meninas na linha de frente, os meninos querendo ter feminismo na
escola! Talvez amanhã terão, apesar da questão de gênero ter sido
excluÃda do Plano Municipal de Educação.â€
“TÃnhamos de falar disso, garantir que não fosse negligenciado. Os
jovens reconhecendo o seu território, ainda que só o território da
escola, e trazendo isso para a educação. Não vai voltar a ser o que era,
vão exigir gestão democrática. A escola é um lugar de dominação, para
disciplinar, mas a educação é para libertar. Essa é a maior herança que
vão deixar.â€
Texto publicado originalmente pelo site outraspalavras.net
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de Lourdes Azevedo dos SantosCoordenadora-Geral
do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher - CNDM
Secretaria Especial de PolÃticas para as Mulheres do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos
Setor de Clubes
Esportivo Sul – Trecho 02 – Lote 22 – EdifÃcio Tancredo Neves – 2ºº andar70200-002 - BrasÃlia - DFTel (61) 3313 7115
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