[ForumCoordenadorias] Leonardo Boff homenageia Muraro
cristiane.oliveira em corumba.ms.gov.br
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Sábado Junho 28 07:13:01 BRT 2014
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Rose Marie Muraro, a saga de uma mulher impossÃvel - Leonardo Boff
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No dia 21 de junho concluiu sua peregrinação terrestre no Rio de Janeiro
uma das mulheres brasileiras mais significativas do século XX: Rose
Marie Muraro (1930-2014). Nasceu quase cega. Mas fez desta deficiência o
grande desafio de sua vida. Cedo intuiu que só o impossÃvel abre o novo;
só o impossÃvel cria. É o que diz no seu livro Memórias de uma mulher
impossÃvel (1999,35). Com parquÃssima visão formou-se em fÃsica e
economia. Mas logo descobriu sua vocação intelectual: de ser uma
pensadora da condição humana especialmente da condição feminina. Foi ela
que no final dos anos 60 do século passado, suscitou a polêmica questão
de gênero. Não se limitou à questão das relações desiguais de poder
entre homens e mulheres, mas denunciou relações de opressão na cultura,
nas ciências, nas correntes filosóficas, nas instituições, no Estado e
no sistema econômico. Enfim deu-se conta de que no patriarcado de
séculos reside a raiz principal deste sistema que desumaniza mulheres e
também homens.
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Realizou em si mesma um impressionante processo de libertação, narrado
no livro Os seis meses em que fui homem (1990,6ª edição). Mas a obra
quiçá mais importante de Rose Marie Muraro tenha sido Sexualidade da
Mulher Brasileira: corpo e classe social no Brasil (1996). Trata-se de
uma pesquisa de campo em vários Estados da federação, analisando como é
vivenciada a sexualidade, tomando em conta a situação de classe das
mulheres, coisa ausente nos pais fundadores do discurso psicanalÃtico.
Neste campo Rose inovou, criando uma grelha teórica que nos faz entender
a vivência da sexualidade e do corpo consoante as classes sociais. Que
tipo de processo de individuação pode realizar uma mulher famélica que
para não deixar o filhinho morrer, dá o sangue de seu próprio seio?
Trabalhei com Rose por 17 anos como editores da Editora Vozes: ela
responsável pela parte cientÃfica e eu pela parte religiosa.
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Mesmo sob severo controle dos órgãos de repressão millitar, Rose tinha
a coragem de publicar os então autores malditos como Darcy Ribeiro,
Fernando Henrique Cardoso, Paulo Freire, os cadernos do CEBRAP e outros.
Depois de anos de longa discussão e estudo em conjunto reunimos nossas
convergências num livro que considero seminal Feminino & Masculino: uma
nova consciência para o encontro das diferenças (Record 2010). Destaco
apenas uma frase dela: "educar um homem é educar um indivÃduo, mas
educar uma mulher é educar uma sociedade".
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Sem deixar nunca de lado a questão do feminino (no homem e na mulher)
voltou-se cedo aos desafios da ciência e da técnica moderna. Já em 1969
lançava Autonomação e o futuro do homem e previa a precarização do mundo
do trabalho.
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A crise econômico-financeira de 2008 levou-a colocar a questão do
capital/dinheiro com o livro Reinventando o capital/dinheiro (Ideias e
Letras 2012), onde enfatiza a relevância das moedas sociais e
complementares e as redes de trocas solidárias que permitem aos mais
pobres garantirem sua subsistência à revelia da economia capitalista
dominante.
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Outra obra importante, realmente rica em conhecimentos, dados e
reflexões culturais se intitula Os avanços tecnológicos e o futuro da
humanidade: querendo ser Deus? (Vozes 2009). Neste texto ela se
confronta com a ponta da ciência, com a nanotecnologia, a robótica, a
engenharia genética e a biologia sintética. Vê vantagens nessas frentes,
pois não é obscurantista. Mas pelo fato de vivermos dentro de uma
sociedade que de tudo faz mercadoria, inclusive a vida, percebia o grave
risco de os cientistas presumirem poderes divinos e usarem os
conhecimentos para redesenharem a espécie humana. Daà o sub-tÃtulo:
Querendo ser Deus? Essa é a ingênua ilusão dos cientistas. O que nos
salvará não é essa nova Revolução Tecnológica mas, como diz Rose, é a
"Revolução da Sustentabilidade, a única que poderá salvar a espécie
humana da destruição…pois a continuarmos como está, não estaremos em um
jogo ganha-perde e sim no terrrÃvel jogo perde-perde que significará a
destruição de nossa espécie, na qual todos perderemos"(Reinventando o
Capital/dinheiro, 238).
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Rose possuÃa um sentimento do mundo agudÃssimo: sofria com os dramas
globais e celebrava os poucos avanços. Nos últimos tempos Rose via
nuvens sombrias sobre todo o planeta, pondo em risco o nosso futuro.
Morreu preocupada com as buscas de alternativas salvadoras. Mulher de
profunda fé e espiritualidade, sonhava com as capacidades humanas de
transformar a tragédia anunciada numa crise purificadora rumo a uma
sociedade que se reconcilie com a natureza e a Mãe Terra. Conclui seu
livro Os avanços tecnológicos com esta sábia frase: "quando desistirmos
de ser deuses poderemos ser plenamente humanos, o que ainda não sabemos
o que é, mas que intuÃmos desde sempre"(p. 354).
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Proclamada a 30 de dezembro de 2005 oficialmente pelo Presidente,
Patrona do Feminismo Brasileiro e com a criação da Fundação Cultural
Rose Marie Muraro em 2009 deixará um legado de fecundo humanismo para as
futuras gerações. Rose Marie Muraro mostrou em sua saga pessoal que o
impossÃvel não é um limite mas um desafio. Ela se inscreve na linhagem
das grandes mulheres arquetÃpicas que ajudam a humanidade a preservar
viva a lamparina sagrada do cuidado por tudo o que existe e vive. Nesse
afã ela se tornou imorredoura.
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_*LEONARDO BOFF TRABALHOU NA EDIORA VOZES POR 17 ANOS JUNTO COM ROSE
MARIE MURARO_
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