MUITO BOA A REFLEXÃO!!!!<br><br><div class="gmail_quote"><font face="arial black, sans-serif" color="#6600cc">O   CIÚME   E   O   CRIME<br></font>
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Artigo publicado na Folha de São Paulo 16/07/2012<br>
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        Luiza Eluf<br>
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O ciúme nasce com o ser humano. Irmãos lutam entre si pelas atenções dos<br>
pais, crianças têm apego possessivo pelos brinquedos. No entanto, além das<br>
tendências inatas, padrões  culturais centenários insuflam o sentimento de<br>
posse, de domínio do outro nas relações afetivas e sexuais. Ao contrário do<br>
que disse Vinícius de Moraes, o ciúme não é o perfume do amor, e pode ser<br>
sua desgraça. Impossível estabelecer uma relação  gratificante quando as<br>
perseguições e as cobranças são a tônica da vida a dois. A exclusividade<br>
entre parceiros não deveria merecer tanta prioridade. A supervalorização da<br>
fidelidade é um erro, é a maior causa de infelicidade conjugal. Não que se<br>
deva ignorar a importância de um parceiro fiel e dedicado, mas a obsessão<br>
pela exclusividade pode tornar a vida um inferno e levar à prática de<br>
violência doméstica. O crime passional nada mais é do que o homicídio<br>
praticado por ciúme.<br>
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O que caracteriza a passionalidade é o motivo do crime. Nosso Código Penal<br>
qualifica o homicídio, aumentando-lhe a pena, quando praticado por motivo<br>
torpe. E o ódio gerado pelo ciúme, a sede de vingança que atormenta  a<br>
pessoa que foi trocada por outra configuram a torpeza. O móvel do crime é<br>
uma combinação de egoísmo, de amor próprio ferido, de instinto sexual e,<br>
acima de tudo, de uma compreensão deformada da justiça, pois o homicida<br>
acha que está no seu “direito”. A pena prevista no Código Penal é de 12 a<br>
30 anos de reclusão. Quanto mais estreita a mentalidade do agente, maior<br>
sua insegurança, sua necessidade de dominar e de se autoafirmar às custas<br>
da companheira ou companheiro. O homicídio entre casais é uma aberração que<br>
durante séculos foi avalizada pela sociedade, principalmente quando o autor<br>
era homem e a vítima, apontada como traidora, era mulher. Foi assim que<br>
morreram Ângela Diniz, Eliane de Gramont, Sandra Gomide e muitas outras.<br>
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O caso Matsunaga, ocorrido recentemente em São Paulo, configura uma exceção<br>
à regra do crime passional. Na esmagadora maioria das vezes, quem mata é o<br>
homem; a mulher é a vítima do marido e da sociedade patriarcal. A dimensão<br>
da tragédia transcende o casal. No geral,há  filhos que ficam órfãos, pais<br>
e mães que definham no desespero de perdas irreparáveis, futuras gerações<br>
que são obrigadas a suportar o estigma do assassinato em família. Está na<br>
hora de corrigir padrões de comportamento que contrariam a natureza humana<br>
e por isso não são respeitados.  A natureza não ditou a fidelidade eterna.<br>
A exclusividade entre parceiros existe, mas em geral é temporária. Além<br>
disso, o ciúme é um mal a ser extirpado, não incentivado como se costuma<br>
fazer. Não se pode cultivar sentimento de posse e propriedade sobre um ser<br>
humano.  Leon Rabinoviz, em 1933, externava sua perplexidade diante do<br>
crime passional observando ser “curioso sentimento o que nos leva a<br>
destruir o objeto de nossa paixão! Mas não devemos extasiar-nos perante o<br>
fato; é, antes, preferível deplorá-lo”. O instinto de destruição é<br>
exatamente o instinto de posse exacerbado, porque a propriedade completa<br>
compreende, também, o poder de matar.<br>
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O ciúme incomoda, fere, humilha quem o sente. No dizer de  Roland Barthes,<br>
“como ciumento sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me reprovo<br>
em sê-lo, porque temo que meu ciúme magoe o outro, porque me deixo dominar<br>
por uma banalidade. Sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser<br>
louco e por ser comum”. O sueco Stieg Larsson,autor da trilogia Millennium,<br>
criou em sua obra personagens envolvidos em tramas intrincadas e<br>
fascinantes. Extremamente moderno e arrojado, ele construiu relações<br>
amorosas baseadas na liberdade individual, mostrando as variadas<br>
possibilidades de ser feliz no amor sem as amarras da exclusividade e da<br>
mentira. Se conseguirmos lidar melhor com nosso egoísmo, o fim do amor será<br>
sempre resolvido nas Varas da Família, e não no Tribunal do Júri.<br>
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Luiza Nagib Eluf é Procuradora de Justiça do Ministério Público de São<br>
Paulo. É autora de sete livros, dentre os quais “A paixão no banco dos<br>
réus”, sobre crimes passionais.<br>
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Para saber mais sobre a Luiza acesse:  <a href="http://www.luizaeluf.com.br" target="_blank">www.luizaeluf.com.br</a><br>
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