[Mulheresdepartidos] LEDA TAMEGA RIBEIRO lhe enviou uma notícia do portal Estadão.com.br

Leda Tamega Ribeiro ltribeiro em hotmail.com
Domingo Março 14 16:27:49 BRT 2010


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								O pecado original de nascer mulher
								A mais influente escritora chinesa conta novas histórias de 
abandono e solidão numa China ainda obcecada pela política do filho 
único 

											
											
												Se dos livros frágeis não se conta o final, dos 
marcantes, muito menos. Por isso não daremos a história de Little Snow, a
 filha que a jornalista Xinran Xue foi impedida de adotar quando ainda 
morava na China. Little Snow fecha a mais recente obra de Xinran Xue, 
Message from an Unkown Chinese Mother, que será publicada pela Companhia
 das Letras neste semestre como As Filhas sem Nome. Também por respeito à
 escritora mais crítica da política chinesa do filho único, Little Snow 
permanece em segredo aqui. Durante esta entrevista, dada por celular de 
Santa Fé (EUA), Xinran se emocionou quando mencionamos a criança. Tanto 
se emocionou que se calou. 



Ela não é disso. Aos 52 anos, 
Xinran está em turnê para divulgar dez histórias de mulheres chinesas 
que penaram sob a lei que valoriza quem tem um filho homem e inferniza 
quem insiste em criar uma menina. Devido à restrição, milhões de garotas
 ainda são abortadas, outras são afogadas em penicos, outras nem chegam a
 se desenvolver no útero depois de um ultrassom certeiro e cerca de 120 
mil são adotadas anualmente mundo afora, enquanto mães biológicas tentam
 o suicídio para sufocar o remorso. Às que resistem, resta pedir a 
Xinran que oriente as mães de nariz grande (as mulheres ocidentais) para
 que carreguem seus bebês apoiados no braço esquerdo, "assim a menina 
ficará mais perto do coração". Xinran, ela própria, mal conviveu com os 
pais, que a deixaram aos cuidados dos avós. Mudou-se para Londres, onde 
mora com o filho, de 21 anos, e o marido inglês, também seu editor. O 
acordo entre os dois é mudar a História. De que forma? Dando voz às 
vítimas e aos perdedores. E também às mulheres. 



Em seu último livro, ‘Message from an Unkown Chinese Mother’,
 a senhora conta dez histórias de mulheres, entre elas chinesas que 
abandonaram suas filhas por causa da política do filho único, outras que
 foram abandonadas também devido a essa lei. Qual dessas histórias mais a
 tocou? 



Em 20 anos de pesquisa, conheci muitas mulheres, mas escolhi 
entrevistar as que vivem no campo para entender o que aconteceu na China
 desde a predominância da população no meio rural até sua migração para 
as cidades. É muito difícil dizer qual delas me tocou mais porque todas 
foram uma grande lição pra mim. Cresci na cidade grande, era muito 
ingênua, mesmo aos 30 anos. Achava que todos na China viviam como eu 
vivia. Depois que conheci essas histórias, elas ainda me causam 
pesadelos. Na noite passada, acordei às 2 da manhã com a imagem da 
garotinha que vi sendo abandonada pela família na estação de trem. Ela 
devia ter 1 ano e meio, era quase meia-noite, não podia acreditar 
naquilo. Acordei pensando: "Será que sobreviveu?" 



A senhora também teve uma infância longe dos seus pais. As 
mulheres presentes no seu livro são uma forma de tentar entender o 
comportamento da sua mãe em relação ao seu abandono? 



Minha mãe não me abandonou. Ela era muito culta, falava quatro 
línguas, mas foi doutrinada para colocar o partido em primeiro lugar, o 
país em segundo e, então, as pessoas. Qualquer um que valorizasse 
primeiramente os próprios filhos era considerado capitalista. Minha mãe 
acreditava nisso. Três meses atrás tentei falar com ela. Eu queria saber
 se realmente se importava com o que tinha acontecido comigo. Ela ficou 
brava com a minha primeira pergunta, então achei melhor não insistir. 
Mas a verdade é que sinto falta dessa resposta, todas sentem. Quando 
viajo, é comum encontrar chinesas adotadas que querem ter notícias de 
suas mães. Não importa a idade ou a língua que falem, sempre perguntam a
 mesma coisa: "Por que minha mãe não me quis?" 



Quanto um casal estrangeiro costuma pagar por uma menina 
chinesa? 



A menina custa de US$ 200 a US$ 2 mil. O preço dos meninos fica entre
 US$ 20 mil e US$ 50 mil. A taxa internacional e de registro cobradas 
desses pais estrangeiros varia entre US$ 3 mil e US$ 5 mil. 



Há comércio de meninos também? 



Todo ano, cerca de 20 mil meninos desaparecem para compor a árvore 
genealógica de famílias que não conseguem conceber um varão. 



O tráfico de noivas e a violência sexual aumentaram na China?
 



Depende de onde você está, se no campo ou nas cidades. Nas cidades 
existe hoje um controle maior das autoridades, a população tem mais 
conhecimento e a Justiça é mais eficaz. Mas, se você for para o campo, 
esse tipo de violência ainda é costume da população e a morte de meninas
 é vista como parte da administração da casa. Quando me perguntaram: 
"Como você ‘lida’ com as meninas?", eu não entendi. Não sabia o que 
responder. Disseram, com surpresa: "Você é uma mulher e não sabe ‘lidar’
 com as meninas?" 



A senhora quer dizer matar as meninas? 



Sim. Existe um livro de imagens antigas da China, de Ren Ming , O 
Sonho das Mulheres. Ele ensina os homens a abusar das mulheres e 
domá-las durante o sexo, assim como explica como elas podem engravidar 
de meninos. Também ensina a lavar bebês. Os meninos são lavados na 
primeira água. Na água já utilizada, as meninas são mergulhadas e 
mortas. Ainda hoje, em certas regiões da China, a morte de meninas é 
parte da cultura de diferentes formas. 



O índice de suicídios de mulheres na China é um dos mais 
altos do mundo, especialmente no campo. Por que isso acontece? 



De acordo com um relatório das Nações Unidas de 2002, cinco países 
tinham índices muito altos de suicídio, entre eles a China, onde é mais 
frequente entre as mulheres. Pelas minhas pesquisas isso não surpreende,
 porque nos anos 80 a maioria das chinesas não sabia a diferença entre a
 vida na cidade e a vida no campo. Quando migravam para o perímetro 
urbano nos anos 90, acordavam e passavam a sentir o choque cultural. Em 
uma das histórias do meu livro, uma mulher trabalhava em um pequeno 
restaurante. Sempre que o restaurante fazia uma festa de aniversário 
para uma menina, ela tentava se matar. Quando a entrevistei, essa mulher
 me perguntou: "Por que as meninas da cidade podem ter uma vida bonita, 
como os meninos? Por que minha filha não teve vida para viver?" Ela a 
tinha matado e isso se tornou insuportável. 



A senhora acha que a situação das mulheres está melhorando, 
na China e no mundo? 



Isso está acontecendo na China. Desde 1949, o Partido Comunista fez 
uma série de coisas estúpidas, mas entre as boas que realizou para a 
China está a ajuda às mulheres para se libertarem dos maridos e dos 
homens em geral. Elas puderam ascender na sociedade. Falo daquelas que 
vivem nas cidades, não das que moram no campo. O problema é que, como 
acontece na maioria dos países, sempre acreditamos que a libertação 
feminina pede uma atitude das mulheres e nunca pensamos que os homens 
precisam de educação. Eles precisam entender que as mulheres necessitam 
ser libertadas por eles. Nesse sentido, fizemos bastante na China, mas 
não existe uma única China. Há mais de 500 Chinas diferentes, da mais 
moderna à mais rudimentar. É por isso que sempre acreditei que a China 
deveria ser contada por diferentes vozes, em diferentes cores. Pelo que 
vi em minha viagem ao Brasil (em 2009, para participar da Festa 
Literária Internacional de Paraty, Flip), senti que as mulheres talvez 
tenham uma vida melhor aí. Mas, no interior profundo, talvez haja em 
relação a elas a mesma falta de conhecimento, a mesma crença no 
tradicional. 



No Brasil, as mulheres estão entre os mais letrados. Ainda 
assim, ganham 30% menos que os homens fazendo o mesmo serviço e ocupam 
só 56 dos 594 lugares no Congresso. Como resolver isso? 



Acho que o governo deveria importar-se com a qualidade de vida da 
população, com a qualidade de vida do País. Ele deveria tratar 
seriamente as mulheres, os modelos de família, e dar a elas não apenas 
educação, mas suporte familiar. 



Ser um país abastado ajuda? Ou seja, é automático que, à 
medida que um país se torna mais rico, maior a possibilidade de uma 
relação igual entre homens e mulheres? 



Nos países desenvolvidos, onde as mulheres têm mais chance de se 
educar e dividir conhecimento com outras, elas se tornam mais 
autoconfiantes. Nos países em desenvolvimento, em que precisam lutar 
para sobreviver, não sobra tempo nem energia nem meios para aprender 
mais nada. Estão exaustas para lidar com a vida diária. Em Cingapura, o 
governo implantou nos anos 60 uma política muito forte para levar 
adiante o planejamento familiar. Se a cingapuriana quiser ter mais 
filhos, precisa ter mais condição para tanto. Caso contrário, pode ter 
no máximo duas crianças. Portanto, depois de algumas gerações, a 
qualidade de vida em Cingapura melhorou enormemente. Mas isso não é 
democracia. 



A política do filho único continuará indefinidamente? 



Não tenho certeza. Alguns meses atrás, as autoridades de Xangai 
desafiaram o governo central. A cidade mais desenvolvida da China se vê 
no direito de ter mais filhos. Em janeiro, a maior província chinesa, 
Hunan, também desafiou Pequim dizendo que a política do filho único 
prejudicou a noção básica de família: muitos jovens não têm ideia do que
 é ter um irmão, um tio, uma tia. Mas a política do filho único ainda 
continua vigente, em parte por causa da corrupção, em parte porque os 
camponeses sabem burlar essa política. E, em alguma medida, a política 
do filho único também pode ser boa para o mundo, considerando-se o 
aquecimento global, o crescimento da população, o esgotamento dos 
recursos naturais. Na Índia, 30% da população tem menos de 30 anos. Isso
 significa que, nos últimos 30 anos, a população da Índia dobrou. Se 
todos os países dobrarem sua população nessa velocidade, muito 
rapidamente acabaremos com a espécie humana. 



A senhora busca ajudar crianças chinesas com problemas por 
meio de uma fundação, a Mother Bridge of Love Foundation. Quais os 
desafios que enfrenta? 



Começamos com esse trabalho em 2004 porque, desde então, 120 mil 
garotas chinesas foram adotadas em 27 países. Na questão da adoção 
internacional - e não importa de qual país se fala -, estamos muito 
atrasados. Não há muito a fazer depois de a adoção concluída. A família 
que adota não recebe apoio social. O que fazemos é tentar ajudar esses 
casais a conhecer as cidades de origem das filhas, fazer com que as 
crianças criem amizades na China. Também ajudamos crianças deficientes 
que foram deixadas para trás. Tentamos dar a elas assistência médica, 
computadores, aulas de inglês. Montamos uma biblioteca com livros 
ilustrados sobre história, paisagens, vida diária, para garotas que 
nunca tiveram chance de frequentar escola, já que a população local não 
as matricula, mesmo em escolas públicas. Querem as meninas para cuidar 
da casa. Os garotos vão para as cidades, enquanto elas são deixadas para
 trás para que casem. Suas famílias precisam das garotas trabalhando 
desde cedo. Se você vai para o campo, vê muitas delas flanando, enquanto
 os meninos estão na escola. 



Como os acadêmicos chineses veem seus livros? 



Quando publiquei meu primeiro livro, em 2002, muitos chineses foram 
contra ele. Não acreditam que a China tenha um lado pobre, nunca viram 
nada como aquilo que retratei. Mas agora mais e mais chineses acreditam 
em mim, porque viajam para o campo. Alguns estudaram no Ocidente e lá 
ouviram coisas que nunca tinham ouvido. Mais de 200 universidades usam 
meus livros como referência e fonte de pesquisa e mais de 100 países os 
incluíram no segundo grau para estudos sobre raça. 



A senhora acha que parte dessa crítica se deve ao fato de os 
chineses terem problemas para enfrentar seu passado? 



Eu achava que somente a China tinha esses problemas, mas agora vejo 
que isso acontece com muitos países. Na Alemanha, muitas mulheres 
silenciaram sobre a 2ª Guerra até dez anos atrás. Sentiam-se como 
assassinas, perdedoras, sem poder expressar seus sentimentos. As 
chinesas que aparecem nos meus livros são todas muito simples, nunca 
tiveram a chance de serem ouvidas, nunca tiveram o direito de ter a 
roupa ou a comida que preferiam. Não são nada. Muitos chineses me 
disseram: 'Elas são gente do povo, por que escrever sobre elas?" Só 
muito recentemente perceberam que a História não deve ser escrita apenas
 pelos ganhadores. Ela deve dar voz às vítimas e aos perdedores. Deve 
dar voz às mulheres.

											
										
										
											
 		 	   		  
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