RES: [Mulheresdepartidos] tempo pra ler

Tereza Vitale :: (61) 3033-3704 tereza em intertexto.net
Terça Maio 18 18:27:25 BRT 2010


Liège, obrigada pelo texto. Já coloquei em todas minhas listas.

 

Tereza Vitale (PPS)

 

De: mulheresdepartidos-bounces em listas.planalto.gov.br
[mailto:mulheresdepartidos-bounces em listas.planalto.gov.br] Em nome de
Secretaria Nacional da Mulher
Enviada em: terça-feira, 18 de maio de 2010 17:48
Para: mulheresdepartidos em listas.planalto.gov.br
Assunto: [Mulheresdepartidos] tempo pra ler

 

 

Companheiras

Encaminho, como sugestão de leitura, o texto abaixo.

Saudações

Liège Rocha


 

Sou feminista

Florence Thomas | Cofundadora del grupo Mujer y Sociedad
FACULTAD DE CIENCIAS HUMANAS | UNIVERSIDAD NACIONAL DE COLOMBIA Marzo, 2008.

Traduzido por Claudina Ramirez

 

Nunca declarei guerra aos homens; não declaro guerra a ninguém, mudo a vida:
sou feminista. Não sou nem amargurada nem insatisfeita: gosto do humor, do
riso, porém também sei compartilhar a dor das milhares de mulheres vítimas
de violência: sou feminista. Gosto com loucura da liberdade, mas não da
libertinagem:sou feminista. Eu não sou pró-aborto, sou pró-escolha porque
conheço as mulheres e creio em sua enorme responsabilização: sou feminista.
Eu não sou lésbica, e se fosse, qual seria o problema? Sou feminista. Sim,
eu sou feminista porque não quero morrer indignada. Sou feminista e
defenderei até onde eu puder o direito de as mulheres viverem livres da
violência. Sou feminista, porque eu acredito que o feminismo é hoje um dos
últimos humanismos nesta terra desolada e porque eu aposto um mundo
misturado, feito para homens e mulheres que não têm a mesma forma de habitar
o mesmo mundo, de interpreta-lo e agir sobre ele .

Sou feminista, porque eu gosto de provocar debates nos lugares onde posso
faze-los. Sou feminista para movimentar idéias e colocar a circular
conceitos; para desconstruir velhos discursos e narrativas, para destruir
mitos e estereótipos derrubar papéis prescritos e imaginários emprestados.
Eu também sou feminista para defender os sujeitos inesperados e seu
reconhecimento como sujeitos de direito como gays, lésbicas e transexuais,
como idosos, como crianças, como descendentes indígenas e afro descendentes
e como todas as mulheres que não desejam dar à luz mais nenhuma criança que
possa ir para a guerra. Eu sou feminista e escrevo para as mulheres que não
têm voz, para tod as as mulheres, por suas inegáveis semelhanças e suas
evidentes diferenças. Eu sou feminista, porque o feminismo é um movimento
que me permite pensar também em nossas irmãs do Afeganistão, Ruanda,
Croatas, Iranianas, que me permite pensar nas meninas africanas cujo
clitóris foi arrancado e em todas as mulheres que são obrigadas a cobrir-se
com véus, em todas as mulheres maltratadas pelo mundo, abusadas, estupradas
e em todas as que pagaram com suas vidas por esta peste mundial chamada
misoginia.

Sim, eu sou feminista, para que possamos ouvir outras vozes, para aprender a
escrever o roteiro da humanidade, com sua complexidade, diversidade e
pluralidade. Eu sou feminista para mover a razão e impedir que ela se
fossilize num discurso estéril para o amor. Eu sou feminista para
reconciliar razão e emoção e, humildemente, participar na construção de
sujeitos “sentipensantes” como chamou Eduardo Galeano. Eu sou feminista e
defensora de uma epistemologia que aceite a complexidade, ambigüidade,
incerteza e desconfiança. Sei agora que não existe uma verdade única, uma
História com H maiúsculo, ou um sujeito universal. Há verdades, histórias e
contingências que coexistem com a história oficial tradicionalmente escrita
por homens, as histórias não-oficiais, histórias de vidas particulares,
histórias de vida que nos ensinam muito sobre o outro lado do mundo, talvez
seu lado mais humano. Por fim, sou feminista por tentar atravessar uma moral
patriarcal das exclusões, dos exilios, dos órfantos e guerras, uma
moralidade que nos governa há séculos. Eu tento ser uma feminista no
contexto de uma modernidade que, finalmente, cumpre sua promessa para todos
e todas.

Como diz Gilles Deleuze "sempre se escreve para dar vida, para liberar-la
quando ela está aprisionada, para traçar linhas de fuga". Sim, vou tentar
traçar para as mulheres deste país linhas de fuga que passem pela utopia.
Porque acredito que um dia existirá no mundo um lugar para as mulheres, para
suas palavras, suas vozes, suas demandas, seus desequilíbrios, seus
transtornos, suas afirmações como seres iguais politicamente aos homens e
diferentes existencialmente. Um dia, num futuro não muito distante, eu
espero que deixemos de atrair e perturbar os homens, deixemos de nos dividir
em mães ou putas , em Marias ou Evas, imagens que alimentaram durante
séculos o imaginário patriarcal, teremos então aprendido a fazer alianças
entre o que representa Maria e o que significa Eva. Teremos aprendido a ser
mulheres, apenas mulheres.

Nem santas, nem bruxas ou nem putas nem virgens, nem submissas, ou
histéricas, mas mulheres, resignificando este conceito, preenchendo-o com
vários conteúdos capazes de refletir novas práticas de si que nossa
revolução nos entregou, mulheres que não mais precisem de amos nem maridos,
mas de novos companheiros dispostos a tentar reconcilar-se com elas a partir
do reconhecimento imprescindível da solidão e da necessidade imperativa do
amor. Por isso repito tantas vezes que ser mulher hoje é quebrar os velhos
padrões do esperados para nós, é não reconhecer-se como o que foi pensado
para nós, é “extraviar-se”, como tão bem expressa a feminista italiana
Alessandra Bocchetti. Sim, não reconhecer-se como o que foi pensado para
nós. Po r isso sou uma extraviada, sou uma feminista. E o sou, com o direito
também de errar.

 


 
 

 

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