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<BODY bgColor=#ffffff>
<DIV><FONT face=Arial size=2></FONT> </DIV>
<DIV> </DIV>
<DIV>Camaradas e companheiras</DIV>
<DIV>Estive, em Belém, participando do 1º Encontro Regional de Conselhos dos
Direitos da Mulher e integrei uma Mesa com a Prof. Luiza Álvares que escreveu o
artigo sobre o fato ocorrido na Uniban-São Bernardo, no "O Liberal".</DIV>
<DIV>Encaminho para conhecimento e divulgação.</DIV>
<DIV>Um abraço</DIV>
<DIV>Liège Rocha<BR><BR><BR><BR></DIV>
<DIV class=gmail_quote>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: center"
align=center><FONT face="Times New Roman" size=3></FONT> </P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: center"
align=center><FONT face="Times New Roman" size=3>A SAIA QUE ENCURTOU A
CIDADANIA</FONT></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify"><FONT
face="Times New Roman" size=3></FONT> </P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: right"
align=right><FONT face="Times New Roman" size=3>Luzia Álvares</FONT><A title=""
href="http://mail.google.com/mail/?ui=2&view=js&name=js&ver=IOwporIiDDE.pt_BR.&am=!zxAF7izlYoC5Bd7y0fc6WsfCtpprIVpuB3sdFDJh1lSv#_ftn1"
target=_blank name=124ecac1dc5fe8cd__ftnref1><SPAN><SPAN><SPAN><SPAN
style="FONT-SIZE: 12pt; FONT-FAMILY: 'Times New Roman'">[1]</SPAN></SPAN></SPAN></SPAN></A><FONT
face="Times New Roman" size=3> </FONT></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify"><FONT
face="Times New Roman" size=3></FONT> </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify"><FONT
face="Times New Roman" size=3>Naquela manhã, 20 de outubro, como uma das tantas
do seu dia-a-dia, a estudante de Turismo Geisy Arruda, 20 anos, da Uniban (São
Bernardo do Campo), procurou uma roupa para ir à faculdade. Escolheu um vestido
rosa do tipo dos que sempre usava enquanto uma jovem do seu tempo. Olhou-se no
espelho e achou-se bonita. Pegou os cadernos, tomou a condução costumeira e
desceu próximo à universidade, adentrou a sala de aula onde seus colegas a
elogiaram pela beleza. O tom rosa do vestido, a saia curta e o corpo da jovem
eram os complementos que formavam um tipo de estética que a tornava diferente de
tantas com saias de diversos comprimentos, calças colantes, shorts ou outra
indumentária que sempre faz a opção dos jovens. Fora da sala, entretanto, outros
olhares trataram essa diferença com xingamentos, humilhações e acusação de estar
provocando.....os colegas homens. Cerca de 700 alunos tumultuaram a escola
ofendendo-a moralmente e ameaçando-a de outras violências. Geisy teve que se
protegida sendo escoltada para fora do prédio pelos policiais chamados para
apaziguar a “onda”. Mas antes teve que colocar sob o belo vestido, um jaleco
branco. </FONT></P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify"><FONT
face="Times New Roman" size=3>“Por que incomodou tanto? Eu não fiz nada”, disse
a jovem, “sempre me vesti assim”. Contraditoriamente, a opinião de um sociólogo
sobre esse fato imperou sobre a versão da garota: “Realmente os trajes eram
provocativos”. Uma colega de Geisy reforçou: “ela se vestiu assim para
provocar”. </FONT></P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify"><FONT
face="Times New Roman" size=3>Poucos dias depois, a universidade da jovem
agredida expulsou-a da instituição acusando-a de “denegrir os bons costumes”.
Mas, sob pressão da sociedade, recuou da atitude formal,
reintegrando-a.</FONT></P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify"><FONT
face="Times New Roman" size=3>Esse fato demonstrou que uma parte significativa
da sociedade brasileira ainda está vinculada ao pensamento patriarcal que define
as normas sociais para homens e mulheres, mantém a medida dos costumes
tradicionais e delineia o verdadeiro processo das relações sociais
hierarquizadas entre os gêneros. O que se viu através do vídeo que circula na
internet foi uma explosão de violência e brutalidade em torno da jovem
supostamente “mal vestida”. </FONT></P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify"><FONT
face="Times New Roman" size=3>Uma atitude de violência evidencia as expectativas
de que a representação do masculino e do feminino corresponde às funções
esperadas desses sujeitos aos quais foram atribuídos papéis específicos. O homem
incorpora a figura do macho, forte, isenta de instintos, emoções e
sensibilidade. A mulher se vincula a uma imagem sensível, honesta, generosa,
perspicaz. Essa ambivalência é garantida pelo pacto de dominação, cujas práticas
incorporam o discurso enunciado desse domínio em valores contrários de
<U>fragilidade-força</U>.</FONT></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify"><FONT
size=3><FONT
face="Times New Roman"><SPAN>
</SPAN>O modelo feminino é talhado pelos papeis de mãe e de esposa, com
atividades de gestão da casa, dos filhos e do marido. O homem será visto como o
pai e o marido, provedor das necessidades da família, daí ser considerado o
chefe. Esse par mantém idealizada uma relação que determina o comando e a
subordinação através dos costumes que se institucionalizam em práticas
determinadas para uns e outros. </FONT></FONT></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify"><FONT
size=3><FONT
face="Times New Roman"><SPAN>
</SPAN>Se o trato com as crianças, a limpeza da casa (as tarefas domesticas)
diz-se que são próprias da mulher, o modelo masculino é livre para as decisões,
para o controle, assumindo a autoridade de chefe, no lar. A divisão sexual do
trabalho explora a desvalorização do trabalho doméstico e o afastamento das
mulheres do processo produtivo social. O homem monopoliza o mercado de
mão-de-obra, muitas vezes excluindo as mulheres de áreas qualificadas, sintoma
da deterioração da formação educacional e profissional desse gênero. Legitima-se
a assimetria sexual no âmbito das relações concretas em nome do biológico,
elemento universal hierarquizado porque supostamente
<U>natural</U>.</FONT></FONT></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify"><FONT
size=3><FONT
face="Times New Roman"><SPAN>
</SPAN>“Essa essência, esta natureza, é, paradoxalmente, passível de ser, a todo
o momento, perdida e, para que tal não ocorra, a cultura se mantém vigilante.
Assim, ela deve ser constantemente aprendida, vigiada, controlada. Perder a
feminilidade ou a masculinidade é uma ameaça constante e as regras para que tal
não ocorra devem ser acatadas desde a infância nos tipos de brincadeiras, nos
‘modos’, no ‘próprio’ de meninos e meninas (Pitangui, 1982). </FONT></FONT></P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify"><FONT
face="Times New Roman" size=3>A partir desses modelos, configura-se a violência
contra as mulheres e a violação dos direitos humanos. “Consiste no uso da força
física, psicológica ou intelectual para obrigar outra pessoa a fazer algo que
não é da sua vontade, tolhendo a liberdade, incomodando e impedindo a vítima de
manifestar seu desejo, sob pena de ser gravemente ameaçada ou até mesmo
espancada, lesionada ou morta” (CFSS). </FONT></P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify"><FONT
face="Times New Roman" size=3>Este aspecto das relações humanas demonstra o grau
de desigualdade e injustiça nas relações que as mulheres vivenciam. </FONT></P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify"><FONT
face="Times New Roman" size=3>Em 1994, a Organização dos Estados Americanos –
OEA – realizou a Convenção de Belém do Pará onde foi assinada a “Convenção
Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher”.
Numa das cláusulas do documento foi registrado que: “A violência contra as
mulheres é uma manifestação de relações de poder historicamente desiguais (...)”
conduzindo à dominação e à discriminação, o que impede o pleno avanço da
cidadania feminina.</FONT></P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify"><FONT
face="Times New Roman" size=3>Agora que as mulheres estão assumindo postos de
governo em diversos países e, entre nós, chegando aos cargos majoritários de
Estado, o tema merece ser abordado pela sua oportunidade. Mesmo porque não se
mede a capacidade intelectual feminina pelo tamanho da saia que veste.
</FONT></P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify"><FONT
face="Times New Roman" size=3></FONT> </P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><B><FONT size=3><FONT
face="Times New Roman">Publicado no Jornal “O Liberal”, Belém do Pará, 12 de
novembro de 2009, pág. 2, 1º caderno </FONT></FONT></B></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: center"
align=center><FONT face="Times New Roman" size=3></FONT> </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify"><FONT
face="Times New Roman" size=3></FONT> </P>
<DIV><BR clear=all><FONT face="Times New Roman" size=3>
<HR align=left width="33%" SIZE=1>
</FONT>
<DIV>
<P style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><A title=""
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target=_blank name=124ecac1dc5fe8cd__ftn1><SPAN><SPAN><SPAN><SPAN
style="FONT-SIZE: 10pt; FONT-FAMILY: 'Times New Roman'">[1]</SPAN></SPAN></SPAN></SPAN></A><FONT
face="Times New Roman"> Luzia Álvares é doutora em Ciência Política.
Coordenadora do GEPEM/UFPA</FONT></P></DIV></DIV></DIV><BR></BODY></HTML>