[Mulheresdepartidos] Valeu a pena sermos desaforadas
Tereza Vitale :: (61) 3033-3704
tereza em intertexto.net
Quinta Novembro 4 13:09:47 BRST 2010
Companheiras,
Passei por muita tensão e enorme ansiedade nesta campanha em várias ocasiões
em que as questões das mulheres foram alavancadas em discussões erráticas e
até fundamentalistas com objetivos eleitoreiros por parte dos três
principais candidatos à Presidência. Mas isso é passado e gostaria de
dizer-lhes que fiquei muito feliz com o primeiro pronunciamento da
presidente eleita em quase todas as políticas abordadas e, principalmente,
com a abertura de sua fala que nos contempla integralmente.
Vejo sua postura atual como recuperando sua independência de ação e querendo
se afirmar e mostrar a que veio. Acho que deu um ‘basta’ nas ‘orientações’
marqueteiras e lulistas. Temo como conseguirá enfrentar esta maluca
composição de partidos que a acompanha, mas para o início, nota 10.
Disponibilizo dois artigos para vocês (que postei na lista interna de
discussões das mulheres do PPS) como fomento de boas discussões.
Agradeço o retorno desta lista. Beijos em todas e boa sorte para nós,
Tereza Vitale
Coordenadora Executiva licenciada da Coordenação Nacional de Mulheres do PPS
Assunto: [PPS-DF] Valeu a pena sermos desaforadas - Iaris Ramalho Cortês
Estou repassando um texto da Iáris Ramalho Cortês, que nos enche de
esperanças após tanta aflição e tanto desalento com a candidatura de Dilma
Rousseff.
Este é um texto que nos contempla, que traz à tona nossos objetivos e nele
nos vemos em plena militância, em trabalho de formação de nossas mulheres,
de nossos quadros e da nossa atuação na comunidade. O trecho: "Gostei do
que falou das mulheres (aconselho um pequeno estagio na SPM para conhecer
mais as diversidades de mulheres brasileiras – a brasileira não é a mulher e
sim as mulheres)" nos ajudar a compreender que precisamos ter paciência e
acreditar que esta mulher poderá nos surpreender, não creio que
politicamente, mas com uma prática e uma agenda para as mulheres que
fortalecerá nossa luta tão sofrida e tão pouco compreendida.
Boa leitura a todas e, se quiserem ler o texto ao qual Iáris se refere, eu o
colei no final desta mensagem.
Tereza Vitale (DF)
Em tempo: Valeu muito, Iáris, obrigada.
Subject: Fwd: Re: [ ENC: Valeu a pena sermosdesaforadas - Iaris Ramalho
Cortês
2010/11/1 <guacira em cfemea.org.br>
Valeu à pena sermos “desaforadas”!
Em março de 2005 o Editorial do Jornal Fêmea, escrito por mim, estava cheio
de revolta diante do conselho que o presidente Lula deu a nós mulheres, no
dia Internacional da Mulher, para que não fossemos “desaforadas” e não
começássemos a “pensar na Presidência da República”.
Na matéria fiz uma retrospectiva dos nossos “desaforos” e encontrei a
resposta na nossa luta para conseguir votar e ser votada, para entrarmos no
mercado de trabalho, para termos 120 dias de licença maternidade, para
deixarmos de ser “colaboradoras” e “com-sorte” do marido, pala lutar pelas
cotas de mulheres na política e muitas outras reivindicações.
Apontei o porquê de precisarmos continuar sendo “desaforadas” para
conseguirmos ganhar o mesmo salário dos homens para um mesmo tipo de
trabalho, para deixar de sermos violentadas, assediadas, maltratadas,
estupradas. Que precisamos continuar a ser “desaforada” para que a sociedade
entenda que nossos corpos nos pertencem, que nossos úteros são parte de nós,
que nós é que temos que decidir se e quando termos nossos filhos.
Cinco anos se passaram e o conselho do Presidente parece ter fermentado o
íntimo das mulheres brasileiras e uma delas se colocou para enfrentar, com
“desaforo” a feroz batalha contra magos da política nacional.
É verdade que aquele que há cinco anos pediu para que a mulher brasileira
“não fosse desaforada para pensar na Presidência da República”, como que,
medindo e pesando aquelas palavras, agora resolveu se redimir e apostar em
uma mulher e apostou com todas as forças de seu poder presidencial.
Temos uma mulher eleita para Presidenta da República Federativa do Brasil e,
como mulher que sonhava ver outra mulher na presidência, me dou o direito de
dizer o que penso para não vê-la decepcionando as mulheres, pois afinal,
também sou “desaforada”. E pergunto:
E agora Maria?
Escutei atentamente seu pronunciamento de vitória. Você nunca se intitulou
“feminista”, mas, pelo seu histórico de vida sei que é uma guerreira e toda
guerreira tem um pouco de feminismo, mesmo sem saber. Gostei do que falou
das mulheres (aconselho um pequeno estagio na SPM para conhecer mais as
diversidades de mulheres brasileiras – a brasileira não é a mulher e sim as
mulheres).
Você vai ter que ser muito “desaforada” para enfrentar o que lhe espera. Vai
precisar ser “desaforada” quando for escolher sua equipe (os gorgulhos do
Poder estão de olhos nos cargos) que, esperamos, tenha um razoável numero de
mulheres.
Vai ter que ser mais “desaforada” ainda, quando tiver que limpar a Corte
Palaciana dos corruptos, fichas sujas, aproveitadores etc.
E quando tiver que decidir sobre o orçamento público aí sim seu “desaforo”
deve ser implacável do contrário não erradicará a miséria.
O desenvolvimento econômico jamais deverá sobrepujar o desenvolvimento
humano e para isto você vai ter que ser, mais uma vez “desaforada”.
E como você vai fazer para separar a religião da política sem ter que ser
“desaforada” com os fundamentalistas de plantão?
Há cinco anos disse que além de “desaforadas” precisávamos ser mais
apressadas para conseguirmos uma igualdade democrática, uma melhor
distribuição das riquezas, maiores oportunidade de trabalho para homens e
mulheres, repartição das tarefas domésticas para o cuidado com crianças,
familiares idosos, pessoas com deficiência e doentes; políticas públicas
realmente implementadas, com equipamentos sociais como creches, lavanderias
e refeitórios públicos.
Muito disso só será concretizado se a educação do país incluir estas
questões, sem discriminações, sem tabus, sem covardia, desde o ensino
fundamental. É outro “desaforo” que terá que enfrentar.
Enfim, desejo que seja “desaforada” e “atrevida”, só assim marcará este país
com sua passagem.
E, como há cinco anos, trago a mesma frase de Fernando Pessoa: “Tudo parece
ousado para quem nada se atreve”.
Iáris Ramalho Cortês – sócia do CFEMEA
Brasília, 01 de novembro de 2010
http://www.cfemea.org.br/noticias/detalhes.asp?IDNoticia=1156
Somos “desaforadas” e precisamos continuar a sê-lo!
Autoria / Iáris Ramalho Cortês
Mês/Ano / março/2005
Somos “desaforadas” e precisamos continuar a sê-lo!
Iáris Ramalho Cortês*
“Tudo parece ousado para quem nada se atreve”
(Fernando Pessoa)
Não nos causa estranheza o conselho do Presidente Luiz Inácio a nós
mulheres, no dia Internacional da Mulher, para não sermos “desaforadas” e
não começarmos a “pensar logo na Presidência da República”.
Este conselho, longe de ser uma “brincadeirinha carinhosa” como foi
classificada por algumas pessoas vinculada ao Governo, é uma idéia
consciente ou inconsciente que existe na maioria das mentes brasileiras.
Nós, mulheres, temos sido “desaforadas” quando lutamos para ter o direito de
votar e ser votada, fomos “desaforadas” quando quisemos entrar no mercado de
trabalho, fomos “desaforadas” quando lutamos por 120 dias de licença
maternidade, fomos “desaforadas” quando quisemos deixar de ser
“colaboradoras” dos maridos no casamento, eliminando a figura do “chefe da
sociedade conjugal”, fomos “desaforadas” quando quisemos ter os mesmos
direitos dos pais perante nossos filhos, fomos “desaforadas” quando apoiamos
a Lei de Cotas para as Mulheres na Política.
Continuamos sendo “desaforadas” quando, ainda, lutamos por direitos tais
como: não sermos discriminadas no trabalho com salários inferiores aos dos
homens; não sermos violentadas, assediadas, maltratadas, estupradas.
Continuamos a ser “desaforadas” quando bradamos que somos donas de nossos
corpos, podendo fazer uso dele para a procriação ou simplesmente para o
prazer. Somos “desaforadas” quando não admitimos que pessoas e instituições
sejam comandantes de nossos úteros, para dizer quando devemos ou não
reproduzir, criminalizando e condenando o aborto consentido.
Precisamos ser mais “desaforadas” para conseguirmos aumentar o número de
nossas participantes no Congresso Nacional (hoje 55 mulheres e 539 homens)
no Supremo Tribunal Federal (1 ministra e 10 ministros), no Superior
Tribunal de Justiça (3 mulheres e 29 homens) no Tribunal Superior do
Trabalho (1 mulher e 16 homens) e no Superior Tribunal Militar onde nenhuma
mulher aparece entre seus ministros. Nunca tivemos uma mulher como
Procuradora Geral da República. Queremos também aumentar o número de
governadoras. Nas 27 Unidades da Federação temos apenas 2 mulheres
governando. Junto com os 926 deputados estaduais, temos apenas 133 deputadas
e, enquanto contamos 45.245 vereadores homens, contamos apenas 6.555
vereadoras. Nos 5.562 municípios temos apenas 418 prefeitas e por aí a fora
deparamos com diferenças similares. No Poder Executivo do “Governo
Democrático e Popular”, que foi o que mais prestigiou as mulheres em seu
alto escalão, temos apenas 4 ministras em 35 postos.
Além de “desaforadas” precisamos ser mais apressadas para que os homens se
conscientizem para dividir o poder com as mulheres. Só assim poderemos fazer
o que almejamos com nossas mentes e nossos corações, aliados à nossa
competência. Até agora temos sido consideradas competentes apenas para o
terceiro e quarto escalão do poder, como assessoras, secretárias, juízas de
primeira instância ou vices de executivos, verdadeiras “carregadoras do
piano” desta máquina que decide e executa o destino do Brasil.
O que almejamos é uma melhor distribuição das riquezas, maiores oportunidade
de trabalho para homens e mulheres, repartição das tarefas domésticas e o
cuidado com crianças, familiares idosos, pessoas com deficiência e doentes;
políticas públicas realmente implementadas, com equipamentos sociais como
creches, lavanderias e refeitórios públicos; sem programas caridosos com
formato de esmolas; eliminação da corrupção; maior e melhor ensino público
profissionalizante e integral para nossas crianças e adolescentes; sistema
penitenciário re-educativo e humanizado; ausência de violência; trânsito
mais humanizado e uma saúde pública universal e integral, sem tantas mortes
durante e pós-parto, por aborto ou HIV/Aids.
Para isto, precisamos sim, sermos mais “desaforadas” e apressadas em
chegarmos aos diversos poderes do Estado, inclusive e principalmente à
Presidência da República. Nossos queridos companheiros, os homens, que
ajudamos a ali chegar, e continuamos a contribuir para que desenvolvam seus
papéis, já provaram e continuam provando que mudar é uma palavra difícil
para ser vivenciada por eles. O patriarcalismo e a continuidade da
hierarquia vertical aproximam os atuais ocupantes do poder aos antigos
comandantes, ditadores, imperadores, príncipes e reis.
Portanto: Viva nossos “desaforos” e continuemos “desaforadas”, pois
“desaforo”, para além do sentido pejorativo que geralmente lhe é dado, é
também e sobretudo, atrevimento, irreverência, imprudência, insolência,
todos os adjetivos e atos necessários para se fazer uma verdadeira revolução
de valores, costumes e ações para, finalmente, podermos mudar a nossa
realidade e construirmos uma democracia radical e paritária.
Brasília, 09 de março de 2005.
* Iáris Ramalho Cortês, advogada e Assessora Técnica do CFEMEA.
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