[Mulheresdepartidos] Valeu a pena sermos desaforadas
vera britto
verabritto em hotmail.com
Quinta Novembro 4 23:16:07 BRST 2010
Tereza Uma boa apreciação. Um abraçoverabritto
esdepartidos em listas.planalto.gov.br
Date: Thu, 4 Nov 2010 13:09:47 -0200
Subject: [Mulheresdepartidos] Valeu a pena sermos desaforadas
Companheiras,
Passei por muita tensão e enorme ansiedade nesta campanha em várias ocasiões em que as questões das mulheres foram alavancadas em discussões erráticas e até fundamentalistas com objetivos eleitoreiros por parte dos três principais candidatos à Presidência. Mas isso é passado e gostaria de dizer-lhes que fiquei muito feliz com o primeiro pronunciamento da presidente eleita em quase todas as políticas abordadas e, principalmente, com a abertura de sua fala que nos contempla integralmente.
Vejo sua postura atual como recuperando sua independência de ação e querendo se afirmar e mostrar a que veio. Acho que deu um ‘basta’ nas ‘orientações’ marqueteiras e lulistas. Temo como conseguirá enfrentar esta maluca composição de partidos que a acompanha, mas para o início, nota 10.
Disponibilizo dois artigos para vocês (que postei na lista interna de discussões das mulheres do PPS) como fomento de boas discussões.
Agradeço o retorno desta lista. Beijos em todas e boa sorte para nós,
Tereza Vitale
Coordenadora Executiva licenciada da Coordenação Nacional de Mulheres do PPS
Assunto: [PPS-DF] Valeu a pena sermos desaforadas - Iaris Ramalho Cortês
Estou repassando um texto da Iáris Ramalho Cortês, que nos enche de esperanças após tanta aflição e tanto desalento com a candidatura de Dilma Rousseff.
Este é um texto que nos contempla, que traz à tona nossos objetivos e nele nos vemos em plena militância, em trabalho de formação de nossas mulheres, de nossos quadros e da nossa atuação na comunidade. O trecho: "Gostei do que falou das mulheres (aconselho um pequeno estagio na SPM para conhecer mais as diversidades de mulheres brasileiras – a brasileira não é a mulher e sim as mulheres)" nos ajudar a compreender que precisamos ter paciência e acreditar que esta mulher poderá nos surpreender, não creio que politicamente, mas com uma prática e uma agenda para as mulheres que fortalecerá nossa luta tão sofrida e tão pouco compreendida.
Boa leitura a todas e, se quiserem ler o texto ao qual Iáris se refere, eu o colei no final desta mensagem.
Tereza Vitale (DF)
Em tempo: Valeu muito, Iáris, obrigada.
Subject: Fwd: Re: [ ENC: Valeu a pena sermosdesaforadas - Iaris Ramalho Cortês
2010/11/1 <guacira em cfemea.org.br>
Valeu à pena sermos “desaforadas”!
Em março de 2005 o Editorial do Jornal Fêmea, escrito por mim, estava cheio de revolta diante do conselho que o presidente Lula deu a nós mulheres, no dia Internacional da Mulher, para que não fossemos “desaforadas” e não começássemos a “pensar na Presidência da República”.
Na matéria fiz uma retrospectiva dos nossos “desaforos” e encontrei a resposta na nossa luta para conseguir votar e ser votada, para entrarmos no mercado de trabalho, para termos 120 dias de licença maternidade, para deixarmos de ser “colaboradoras” e “com-sorte” do marido, pala lutar pelas cotas de mulheres na política e muitas outras reivindicações.
Apontei o porquê de precisarmos continuar sendo “desaforadas” para conseguirmos ganhar o mesmo salário dos homens para um mesmo tipo de trabalho, para deixar de sermos violentadas, assediadas, maltratadas, estupradas. Que precisamos continuar a ser “desaforada” para que a sociedade entenda que nossos corpos nos pertencem, que nossos úteros são parte de nós, que nós é que temos que decidir se e quando termos nossos filhos.
Cinco anos se passaram e o conselho do Presidente parece ter fermentado o íntimo das mulheres brasileiras e uma delas se colocou para enfrentar, com “desaforo” a feroz batalha contra magos da política nacional.
É verdade que aquele que há cinco anos pediu para que a mulher brasileira “não fosse desaforada para pensar na Presidência da República”, como que, medindo e pesando aquelas palavras, agora resolveu se redimir e apostar em uma mulher e apostou com todas as forças de seu poder presidencial.
Temos uma mulher eleita para Presidenta da República Federativa do Brasil e, como mulher que sonhava ver outra mulher na presidência, me dou o direito de dizer o que penso para não vê-la decepcionando as mulheres, pois afinal, também sou “desaforada”. E pergunto:
E agora Maria?
Escutei atentamente seu pronunciamento de vitória. Você nunca se intitulou “feminista”, mas, pelo seu histórico de vida sei que é uma guerreira e toda guerreira tem um pouco de feminismo, mesmo sem saber. Gostei do que falou das mulheres (aconselho um pequeno estagio na SPM para conhecer mais as diversidades de mulheres brasileiras – a brasileira não é a mulher e sim as mulheres).
Você vai ter que ser muito “desaforada” para enfrentar o que lhe espera. Vai precisar ser “desaforada” quando for escolher sua equipe (os gorgulhos do Poder estão de olhos nos cargos) que, esperamos, tenha um razoável numero de mulheres.
Vai ter que ser mais “desaforada” ainda, quando tiver que limpar a Corte Palaciana dos corruptos, fichas sujas, aproveitadores etc.
E quando tiver que decidir sobre o orçamento público aí sim seu “desaforo” deve ser implacável do contrário não erradicará a miséria.
O desenvolvimento econômico jamais deverá sobrepujar o desenvolvimento humano e para isto você vai ter que ser, mais uma vez “desaforada”.
E como você vai fazer para separar a religião da política sem ter que ser “desaforada” com os fundamentalistas de plantão?
Há cinco anos disse que além de “desaforadas” precisávamos ser mais apressadas para conseguirmos uma igualdade democrática, uma melhor distribuição das riquezas, maiores oportunidade de trabalho para homens e mulheres, repartição das tarefas domésticas para o cuidado com crianças, familiares idosos, pessoas com deficiência e doentes; políticas públicas realmente implementadas, com equipamentos sociais como creches, lavanderias e refeitórios públicos.
Muito disso só será concretizado se a educação do país incluir estas questões, sem discriminações, sem tabus, sem covardia, desde o ensino fundamental. É outro “desaforo” que terá que enfrentar.
Enfim, desejo que seja “desaforada” e “atrevida”, só assim marcará este país com sua passagem.
E, como há cinco anos, trago a mesma frase de Fernando Pessoa: “Tudo parece ousado para quem nada se atreve”.
Iáris Ramalho Cortês – sócia do CFEMEA
Brasília, 01 de novembro de 2010
http://www.cfemea.org.br/noticias/detalhes.asp?IDNoticia=1156
Somos “desaforadas” e precisamos continuar a sê-lo!
Autoria / Iáris Ramalho Cortês
Mês/Ano / março/2005
Somos “desaforadas” e precisamos continuar a sê-lo!
Iáris Ramalho Cortês*
“Tudo parece ousado para quem nada se atreve”
(Fernando Pessoa)
Não nos causa estranheza o conselho do Presidente Luiz Inácio a nós mulheres, no dia Internacional da Mulher, para não sermos “desaforadas” e não começarmos a “pensar logo na Presidência da República”.
Este conselho, longe de ser uma “brincadeirinha carinhosa” como foi classificada por algumas pessoas vinculada ao Governo, é uma idéia consciente ou inconsciente que existe na maioria das mentes brasileiras.
Nós, mulheres, temos sido “desaforadas” quando lutamos para ter o direito de votar e ser votada, fomos “desaforadas” quando quisemos entrar no mercado de trabalho, fomos “desaforadas” quando lutamos por 120 dias de licença maternidade, fomos “desaforadas” quando quisemos deixar de ser “colaboradoras” dos maridos no casamento, eliminando a figura do “chefe da sociedade conjugal”, fomos “desaforadas” quando quisemos ter os mesmos direitos dos pais perante nossos filhos, fomos “desaforadas” quando apoiamos a Lei de Cotas para as Mulheres na Política.
Continuamos sendo “desaforadas” quando, ainda, lutamos por direitos tais como: não sermos discriminadas no trabalho com salários inferiores aos dos homens; não sermos violentadas, assediadas, maltratadas, estupradas. Continuamos a ser “desaforadas” quando bradamos que somos donas de nossos corpos, podendo fazer uso dele para a procriação ou simplesmente para o prazer. Somos “desaforadas” quando não admitimos que pessoas e instituições sejam comandantes de nossos úteros, para dizer quando devemos ou não reproduzir, criminalizando e condenando o aborto consentido.
Precisamos ser mais “desaforadas” para conseguirmos aumentar o número de nossas participantes no Congresso Nacional (hoje 55 mulheres e 539 homens) no Supremo Tribunal Federal (1 ministra e 10 ministros), no Superior Tribunal de Justiça (3 mulheres e 29 homens) no Tribunal Superior do Trabalho (1 mulher e 16 homens) e no Superior Tribunal Militar onde nenhuma mulher aparece entre seus ministros. Nunca tivemos uma mulher como Procuradora Geral da República. Queremos também aumentar o número de governadoras. Nas 27 Unidades da Federação temos apenas 2 mulheres governando. Junto com os 926 deputados estaduais, temos apenas 133 deputadas e, enquanto contamos 45.245 vereadores homens, contamos apenas 6.555 vereadoras. Nos 5.562 municípios temos apenas 418 prefeitas e por aí a fora deparamos com diferenças similares. No Poder Executivo do “Governo Democrático e Popular”, que foi o que mais prestigiou as mulheres em seu alto escalão, temos apenas 4 ministras em 35 postos.
Além de “desaforadas” precisamos ser mais apressadas para que os homens se conscientizem para dividir o poder com as mulheres. Só assim poderemos fazer o que almejamos com nossas mentes e nossos corações, aliados à nossa competência. Até agora temos sido consideradas competentes apenas para o terceiro e quarto escalão do poder, como assessoras, secretárias, juízas de primeira instância ou vices de executivos, verdadeiras “carregadoras do piano” desta máquina que decide e executa o destino do Brasil.
O que almejamos é uma melhor distribuição das riquezas, maiores oportunidade de trabalho para homens e mulheres, repartição das tarefas domésticas e o cuidado com crianças, familiares idosos, pessoas com deficiência e doentes; políticas públicas realmente implementadas, com equipamentos sociais como creches, lavanderias e refeitórios públicos; sem programas caridosos com formato de esmolas; eliminação da corrupção; maior e melhor ensino público profissionalizante e integral para nossas crianças e adolescentes; sistema penitenciário re-educativo e humanizado; ausência de violência; trânsito mais humanizado e uma saúde pública universal e integral, sem tantas mortes durante e pós-parto, por aborto ou HIV/Aids.
Para isto, precisamos sim, sermos mais “desaforadas” e apressadas em chegarmos aos diversos poderes do Estado, inclusive e principalmente à Presidência da República. Nossos queridos companheiros, os homens, que ajudamos a ali chegar, e continuamos a contribuir para que desenvolvam seus papéis, já provaram e continuam provando que mudar é uma palavra difícil para ser vivenciada por eles. O patriarcalismo e a continuidade da hierarquia vertical aproximam os atuais ocupantes do poder aos antigos comandantes, ditadores, imperadores, príncipes e reis.
Portanto: Viva nossos “desaforos” e continuemos “desaforadas”, pois “desaforo”, para além do sentido pejorativo que geralmente lhe é dado, é também e sobretudo, atrevimento, irreverência, imprudência, insolência, todos os adjetivos e atos necessários para se fazer uma verdadeira revolução de valores, costumes e ações para, finalmente, podermos mudar a nossa realidade e construirmos uma democracia radical e paritária.
Brasília, 09 de março de 2005.
* Iáris Ramalho Cortês, advogada e Assessora Técnica do CFEMEA.
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