[Pactonacional] ENC: Os motivos da luta dos Guaranis e Kaiowás pelos territórios tradicionais
Susan Sousa Alves
susan.alves em spmulheres.gov.br
Terça Outubro 30 15:48:25 BRST 2012
_____
De: SPMULHERES - SPMULHERES - Secretaria de Politicas para as Mulheres
Enviada em: sexta-feira, 26 de outubro de 2012 11:54
Para: SPMULHERES - GERAL
Assunto: Os motivos da luta dos Guaranis e Kaiowás pelos territórios
tradicionais
-----Mensagem original-----
De: ascom em consea.planalto.gov.br [mailto:ascom em consea.planalto.gov.br]
Enviada em: Nenhum
Assunto: Os motivos da luta dos Guaranis e Kaiowás pelos territórios
tradicionais
<http://www4.planalto.gov.br/consea/banners/informe-consea/image>
25 de outubro de 2012
Os motivos da luta dos Guaranis e
Kaiowás pelos territórios tradicionais
Por Tonico Benites
A pretensão deste artigo é fazer uma breve análise das motivações principais
que levaram historicamente e ainda levam hoje os Guaranis e Kaiowás a
retornarem aos territórios tradicionais, tekoha guasu, de onde foram
expulsos e dispersos. Além disso, pretende-se ressaltar os significados
vitais dos territórios específicos reivindicados para os povos Guaranis e
Kaiowás. Esses territórios tradicionais estão localizados nas margens das
bacias dos rios situados no cone sul do estado do Mato Grosso do Sul.
Como é sabido, no início da segunda metade do século XX, intensificou-se o
processo de colonização oficial do sul do atual estado do Mato Grosso do
Sul, e inúmeras comunidades Guaranis e Kaiowás foram expropriadas e expulsas
de seus territórios antigos, sendo, na maioria dos casos, transferidas e
confinadas nas Reservas Indígenas e/ou Postos Indígenas do Serviço de
Proteção dos Índios (SPI). Diante desse quadro, iniciativas de articulação e
luta de várias lideranças Guaranis e Kaiowás para retornar aos antigos
territórios começaram a despontar no final da década de 1970.
Os grandes rituais religiosos - jeroky guasu - foram fundamentais para os
líderes políticos e religiosos se envolverem nos processos de reocupação e
recuperação dos territórios tradicionais específicos. A atuação, ação e
valorização dos saberes Guaranis e Kaiowás, rituais religiosos e a
intermediação dos líderes religiosos nos processos de reocupação e
recuperação de parte dos territórios tradicionais foram e são muito
importantes para este povo. Nesse sentido, é importante explicitar que as
manifestações rituais e religiosas observadas em situações de reocupação de
territórios tradicionais expressam uma ação e concepção indígena bem
específica e inteiramente desconhecida dos não indígenas, gerando diferentes
reações e posições entre as diversas autoridades envolvidas em conflitos
fundiários, tais como, fazendeiros e instituições do Estado brasileiro, e
Justiça.
É relevante considerar que os Guaranis e Kaiowás sentem-se originários dos
espaços territoriais reivindicados, e que, nos últimos 30 anos, tendo sido
privados da possibilidade de se reassentarem nos seus territórios
tradicionais e sobreviver conforme seus usos, costumes e crenças, passaram a
investir reiteradamente nas táticas de recuperação deles.
Em relação ao significado vital do território para o povo Guarani e Kaiowá é
preciso observar em detalhe o modo específico de relacionamento desses
indígenas com os seres invisíveis/guardiões (protetores/deuses) da terra,
manifestados através de cantos e rituais diversos dos líderes espirituais. O
respeito a esses seres humanos invisíveis e a forma de diálogo com eles
marca uma diferença muito importante em relação à percepção e ao uso dos
recursos naturais da terra. Este é um aspecto fundamental e determinante do
relacionamento dos Guaranis e Kaiowás com os territórios antigos. Ao lutar
pela recuperação dos territórios, já nas terras reocupadas/retomadas, os
Guaranis e Kaiowás demonstram e acionam claramente a sua especificidade e
condição de pertencimentos aos territórios de origem.
Importa observar que os Guaranis e Kaiowás têm ligação e conexão direta com
os territórios específicos, considerando-se a si e aos territórios como uma
só família, dado que o território específico é visto por esses indígenas
como humano. Os Guaranis e Kaiowás possuem um forte sentimento religioso de
pertencimento ao território específico, fundamentado em termos cosmológicos,
sob a compreensão religiosa de que os Guaranis e Kaiowás foram destinados,
em sua origem como humanidade, a viver, usufruir e a cuidar deste território
específico, de modo recíproco e mútuo, portanto eles podem até morrer para
salvar a terra. Há um compromisso irrenunciável entre os Guaranis e Kaiowás
e o guardião/protetor da terra, há pacto de diálogo e apoio recíproco e
mútuo: os Guaranis e Kaiowás protegem e gerenciam os recursos da terra, por
sua vez, o guardião da terra vigia e nutre os Guaranis e Kaiowás.
A compreensão dos espaços territoriais pelos Guaranis e Kaiowás tem uma
concepção cosmológica específica, sui generis, e uma fundamentação
cosmológica e histórica que se enraíza em tempos passados. Assim, o processo
de luta antiga pela reocupação e recuperação dos territórios tradicionais é
uma ação exclusivamente indígena interconectada aos seres do cosmo Guaranis
e Kaiowás, ou seja, trata-se de uma concepção etnicamente diferenciada, eles
sentem profundamente a importância de retornar ao território específico.
Dessa forma, a luta de recuperação das antigas áreas ocupadas pelos Guaranis
Kaiowás é realizada por meio de retorno ao território, caracterizado como um
movimento pacífico e político-religioso exclusivo. Isto é, trata-se de uma
articulação política, comunitária e intercomunitária de lideranças
religiosas Guaranis e Kaiowás.
Nesse contexto, destaca-se o papel da Aty Guasu, uma assembleia geral
realizada entre as lideranças políticas e religiosas dos Guaranis e Kaiowás
a partir do final de 1970. Decisões vitais que afetam a todos, como decisões
sobre a recuperação de parte dos territórios antigos, por exemplo, são
discutidas religiosamente e acatadas. A Aty Guasu é definida como o único
foro legítimo de discussão religiosa e de decisão articulada das lideranças
políticas e religiosas dos Guaranis e Kaiowás.
Por fim, o que se deve ressaltar, como conclusão parcial do que foi exposto,
é a importância da continuidade histórica da luta político-religiosa das
lideranças Guaranis e Kaiowás.
Tonico Benites é Guarani-Kaiowá, mestre e doutorando em Antropologia Social
do Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Assessoria de Comunicação
(61) 3411.3279 / 3483
www.presidencia.gov.br/consea <http://www.presidencia.gov.br/consea>
ascom em consea.planalto.gov.br <mailto:ascom em consea.planalto.gov.br>
Redes <http://www4.planalto.gov.br/consea/banners/redes-sociais-1> Sociais
-------------- Próxima Parte ----------
Um anexo em HTML foi limpo...
URL: http://www1.planalto.gov.br/pipermail/pactonacional/attachments/20121030/d6b98d36/attachment.html
Mais detalhes sobre a lista de discussão Pactonacional