[Pactonacional] ENC: VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES - Autora Francisca Sena.
Susan Sousa Alves
susan.alves em spmulheres.gov.br
Sexta Março 1 16:46:05 BRT 2013
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De: Regina Celia Santanna Adami Santos
Enviada em: sexta-feira, 1 de março de 2013 16:40
Para: SPMULHERES - GERAL
Assunto: VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES - Autora Francisca Sena.
A vida de uma mulher equivale a uma lata de manteiga?
Em 2006, o noticiário divulgou o julgamento de uma jovem de 19 anos,
empregada doméstica, por ter tentado roubar um pote de manteiga num comércio
em São Paulo. O roubo foi evitado pelo dono do estabelecimento. A jovem foi
condenada a 4 anos de prisão, em regime semi-aberto.
Em fevereiro de 2008, Antonio Francisco Araújo da Silva cometeu um grave
crime no interior do Ceará, na cidade de Ubajara. Espancou todo o corpo e
deu marteladas na cabeça de Francisca das Chagas Oliveira (conhecida como
Fran), mulher com quem era casado. Fran, depois de muito machucada,
inclusive com afundamento da caixa craniana, desmaiou em meio a tamanha
agressividade. O desmaio fez o agressor acreditar que ela havia morrido e
por isso ele parou com seu ataque de fúria. Fran sobreviveu, mas em
decorrência desse crime brutal, até hoje tem seqüelas que alteraram
radicalmente a sua vida: toma medicamentos, vive submetida a tratamento
psicológico, perdeu 50% da audição e sofre com dores no braço direito, entre
outras. A dor e o transtorno na família de Fran também não podem ser
esquecidos.
Diante da impossibilidade de apagar esse crime na história de sua vida, ao
longo desses 5 anos, familiares e amigas/os da Fran, movimentos feministas -
em especial o Movimento Ibiapabano de Mulheres - MIM, vem clamando por
justiça, na tentativa desse crime não ficar impune. Esse sentimento foi
alimentado ainda mais pelo fato do acusado não ter ficado preso um dia
sequer pelo crime cometido.
Ontem, 27/02, finalmente Antonio Silva foi julgado no Fórum Clóvis
Bevilaqua, em Fortaleza. Ao final do julgamento, veio a sentença: 4 anos de
condenação em regime aberto. O argumento absurdo de que o agressor não tem
antecedentes c riminais, funcionou mais uma vez para abrandar a pena.
A condenação do Antonio Francisco Araujo da Silva foi mais amena do que a da
jovem mulher que tentou roubar uma lata de manteiga, alegadamente para
ajudar aliviar a fome do seu filho. Isso nos faz concluir que a vida de uma
mulher vale menos do que uma lata de manteiga. Como pode haver uma mesma
punição para dois casos tão díspares, quando o primeiro relaciona-se com a
possível violação de uma mercadoria e o outro caso, tem relação com a
violação efetiva da vida de uma mulher?
Enquanto ainda estamos inconformadas com a sentença, permanecem em nós os
sentimentos ruins provocado durante o julgamento, ao rememorar os fatos da
violência e tocar novamente nas feridas. Tudo isso diante do agressor, frio,
calculista. Há quem o classifique como "monstro", mas queremos considerá-lo
na sua condição humana e por isso mesmo, tem a consciência de que a sua
presença no mundo tem uma dimen são ética, que o torna capaz de tomar
decisões, de fazer escolhas, de prever as conseqüências dos seus atos, de
viver em relação com suas/seus semelhantes. Não, ele não é monstro! É um
homem, adulto, machista, que certamente aprendeu a acreditar ser o dono da
vida das mulheres com quem se relaciona, que usa da força e da violência
contra as mulheres para impor suas vontades e interesses, que estabelece uma
relação desigual com uma mulher e se acha no direito de maltratá-la, de
espancá-la e de tentar tirar sua vida covardemente, que usa a violência como
recurso para resolução de conflitos. Temos que reconhecer que esse
comportamento é tipicamente humano. Somente o considerando humano, é que
podemos querer que ele assuma a conseqüência dos seus atos, que ele seja
punido por ter cometido um grave crime de violência contra a mulher, que
podemos pressionar a justiça para retirar do criminoso o direito de ir e vir
livremente. Mas se um crime desta gravida de não é devidamente punido, fica
um péssimo exemplo para outros homens que são ou que poderão ser violentos
com as mulheres que estão em volta deles.
E o que tudo isso tem a ver com cada uma/um de nós? Qual a nossa
responsabilidade em desconstruir as bases de uma sociedade marcadamente
machista? Quando ousaremos educar nossas crianças para a igualdade e o
respeito entre mulheres e homens? Que mudanças no cotidiano podemos fazer
para que outros Antônios não sejam formados e outras Franciscas não sejam
vítimas de violência sexista? Quando teremos a ousadia de semear outros
valores para nossos meninos em formação? Quando deixaremos de presentear
nossos filhos com revólveres e espadas de brinquedo, para que eles aprendam
desde cedo a exercitar a violência? Quando exigiremos que a justiça
brasileira não amenize os crimes de violência contra as mulheres, sob o
pífio argumento de que o homem não tem antecedentes criminais? Até quando a
violência cont ra as mulheres?
A violência sofrida pela Fran nos enche de indignação! E nossa indignação é
porque esta sentença deixa em nós o sabor de impunidade; porque certamente
este homem não cumprirá nem metade desta pena; porque ele permanecerá solto
representando uma ameaça à vida de Fran, de sua família e também de outras
mulheres que se aproximarem dele; porque a justiça é cega para os crimes
cometidos contra as mulheres; porque esse crime não é isolado, mas engrossa
as estatísticas da marca de 1 bilhão de mulheres que sofre com a violência
em todo o mundo.
Mas esta indignação, aliada ao desejo de justiça, também nos mobiliza. Em
nome delas continuaremos a ir pras ruas, a levantar nossas bandeiras, a
lutar pelo fim da violência contra as mulheres, a tocar tambores denunciando
as opressões e, sobretudo, a continuar lutando pela defesa, efetivação e
ampliação dos direitos das mulheres.
Enquanto houver injustiça, sempre haverá lut a!!!
Francisca Sena - militante do Instituto Negra do Ceará e do Fórum Cearense
de Mulheres
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