[Pactonacional] ENC: Mãe Stella: "O tempo leva o que não se escreve"

Susan Sousa Alves susan.alves em spmulheres.gov.br
Terça Maio 21 18:32:19 BRT 2013


 

 

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De: Regina Celia Santanna Adami Santos [mailto:reginaadami em spm.gov.br] 
Enviada em: terça-feira, 21 de maio de 2013 13:47
Para: 'geral em spmulheres.gov.br'
Assunto: Mãe Stella: "O tempo leva o que não se escreve"

 

 




 

Mãe Stella: "O tempo leva o que não se escreve" 

Marjorie Moura 

*    Margarida Neide | Ag. A TARDE

Mãe Stella é a primeira intelectual do movimento afro a ser nomeada para a
Academia

A cadeira nº 33 da Academia de Letras da Bahia (ALB), cujo patrono é Castro
Alves, passa a partir de agora a ser ocupada por uma nobre personalidade,
Maria Stella de Azevedo Santos, a mãe Stella de Oxóssi, ialorixá do terreiro
Ilê Axé Opô Afonjá. Enfermeira de formação, é autora de cinco livros que
tratam da herança cultural africana e sua interpretação. Por seu trabalho,
ganhou o prêmio jornalístico Estadão em 2001, recebeu o título de Doutor
Honoris Causa pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb), em 2009, e da
Universidade Federal da Bahia, em 2005. Foi agraciada com a Comenda Maria
Quitéria (Prefeitura de Salvador), Ordem do Cavaleiro (Governo da Bahia) e
Ordem do Mérito Cultural do Ministério da Cultura.

Marjorie Moura - O candomblé é conhecido pela oralidade, pela transmissão
dos conhecimentos de forma oral. A senhora rompeu esta tradição ao escrever
sobre a tradição africana. Como se sente diante deste reconhecimento com sua
eleição para a ALB?

Mãe Stella - Vejo tudo isso como uma evolução, uma grande evolução. O povo
vai crescendo, se conscientizando sobre a verdade de nossa cultura e
chegamos aqui. Os praticantes da religião do candomblé eram vistos como
analfabetos pela sociedade porque falavam outra língua e vinham de um novo
mundo. O destino da escravidão nos trouxe ao Brasil e nossa cultura e
tradição vieram junto e sobreviveram a tudo. Hoje isso é reconhecido na
academia como um legado que não pode ser dissociado da cultura brasileira.

Marjorie Moura - Inclusive até palavras desta língua que era desconhecida
fazem parte hoje de nosso vocabulário...

Mãe Stella - É claro, assim como as palavras indígenas também foram
incorporadas ao nosso dia a dia. Assim com tem gente que fala palavras
estrangeiras. A cultura é assim, cheia de influências que vêm de todos os
lados.

Marjorie Moura - O fato de a senhora ter sido escolhida para ocupar a
cadeira cujo patrono é Castro Alves e que teve como último ocupante o
professor Ubiratan Castro tem um significado especial?

Mãe Stella - Nada poderia ser mais especial. Castro Alves tem uma poesia
vigorosa e foi uma das primeiras vozes no Brasil a se levantar contra a
escravidão. A força dos versos de "Navio Negreiro" calou fundo na sociedade
brasileira ao reconhecer nos escravos africanos pessoas iguais a qualquer
outra. Depois, a contribuição do professor Ubiratan Castro para a
preservação de nossa cultura. Diante disso, ninguém nunca pensaria que uma
mãe de santo poderia chega a ocupar este posto. Isso mudou pela nossa luta,
mas também por meus livros, porque o que a gente não escreve o tempo leva.

Marjorie Moura - Seus títulos lhe levaram a esta eleição?

Mãe Stella - Com certeza, mas os títulos, e foram muitos, são muito justos e
resultado de muito trabalho. A gente se entregou muito, se empenhou muito
para chegar até aqui.

Marjorie Moura - Tem gente sonhando com cânticos de suas filhas de santo e
toques de atabaques em sua posse. Falaram até que Jorge Amado ficaria feliz
em assistir. Ela já foi marcada?

Mãe Stella - A posse vai depender da academia e ainda não foi marcada porque
estas cerimônias têm seu ritmo próprio e não sei como vai ser a organização.
Mas é certo que o evento pode ter algum toque da religião africana porque
ela é muito forte e vai agradar a muita gente, não é? (risos).

 

 

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