[Mulheresdepartidos] Texto Luzia Álvares "O Liberal"
Secretaria Nacional da Mulher
mulher em pcdob.org.br
Sexta Novembro 13 11:15:03 BRST 2009
Camaradas e companheiras
Estive, em Belém, participando do 1º Encontro Regional de Conselhos dos Direitos da Mulher e integrei uma Mesa com a Prof. Luiza Álvares que escreveu o artigo sobre o fato ocorrido na Uniban-São Bernardo, no "O Liberal".
Encaminho para conhecimento e divulgação.
Um abraço
Liège Rocha
A SAIA QUE ENCURTOU A CIDADANIA
Luzia Álvares[1]
Naquela manhã, 20 de outubro, como uma das tantas do seu dia-a-dia, a estudante de Turismo Geisy Arruda, 20 anos, da Uniban (São Bernardo do Campo), procurou uma roupa para ir à faculdade. Escolheu um vestido rosa do tipo dos que sempre usava enquanto uma jovem do seu tempo. Olhou-se no espelho e achou-se bonita. Pegou os cadernos, tomou a condução costumeira e desceu próximo à universidade, adentrou a sala de aula onde seus colegas a elogiaram pela beleza. O tom rosa do vestido, a saia curta e o corpo da jovem eram os complementos que formavam um tipo de estética que a tornava diferente de tantas com saias de diversos comprimentos, calças colantes, shorts ou outra indumentária que sempre faz a opção dos jovens. Fora da sala, entretanto, outros olhares trataram essa diferença com xingamentos, humilhações e acusação de estar provocando.....os colegas homens. Cerca de 700 alunos tumultuaram a escola ofendendo-a moralmente e ameaçando-a de outras violências. Geisy teve que se protegida sendo escoltada para fora do prédio pelos policiais chamados para apaziguar a “onda”. Mas antes teve que colocar sob o belo vestido, um jaleco branco.
“Por que incomodou tanto? Eu não fiz nada”, disse a jovem, “sempre me vesti assim”. Contraditoriamente, a opinião de um sociólogo sobre esse fato imperou sobre a versão da garota: “Realmente os trajes eram provocativos”. Uma colega de Geisy reforçou: “ela se vestiu assim para provocar”.
Poucos dias depois, a universidade da jovem agredida expulsou-a da instituição acusando-a de “denegrir os bons costumes”. Mas, sob pressão da sociedade, recuou da atitude formal, reintegrando-a.
Esse fato demonstrou que uma parte significativa da sociedade brasileira ainda está vinculada ao pensamento patriarcal que define as normas sociais para homens e mulheres, mantém a medida dos costumes tradicionais e delineia o verdadeiro processo das relações sociais hierarquizadas entre os gêneros. O que se viu através do vídeo que circula na internet foi uma explosão de violência e brutalidade em torno da jovem supostamente “mal vestida”.
Uma atitude de violência evidencia as expectativas de que a representação do masculino e do feminino corresponde às funções esperadas desses sujeitos aos quais foram atribuídos papéis específicos. O homem incorpora a figura do macho, forte, isenta de instintos, emoções e sensibilidade. A mulher se vincula a uma imagem sensível, honesta, generosa, perspicaz. Essa ambivalência é garantida pelo pacto de dominação, cujas práticas incorporam o discurso enunciado desse domínio em valores contrários de fragilidade-força.
O modelo feminino é talhado pelos papeis de mãe e de esposa, com atividades de gestão da casa, dos filhos e do marido. O homem será visto como o pai e o marido, provedor das necessidades da família, daí ser considerado o chefe. Esse par mantém idealizada uma relação que determina o comando e a subordinação através dos costumes que se institucionalizam em práticas determinadas para uns e outros.
Se o trato com as crianças, a limpeza da casa (as tarefas domesticas) diz-se que são próprias da mulher, o modelo masculino é livre para as decisões, para o controle, assumindo a autoridade de chefe, no lar. A divisão sexual do trabalho explora a desvalorização do trabalho doméstico e o afastamento das mulheres do processo produtivo social. O homem monopoliza o mercado de mão-de-obra, muitas vezes excluindo as mulheres de áreas qualificadas, sintoma da deterioração da formação educacional e profissional desse gênero. Legitima-se a assimetria sexual no âmbito das relações concretas em nome do biológico, elemento universal hierarquizado porque supostamente natural.
“Essa essência, esta natureza, é, paradoxalmente, passível de ser, a todo o momento, perdida e, para que tal não ocorra, a cultura se mantém vigilante. Assim, ela deve ser constantemente aprendida, vigiada, controlada. Perder a feminilidade ou a masculinidade é uma ameaça constante e as regras para que tal não ocorra devem ser acatadas desde a infância nos tipos de brincadeiras, nos ‘modos’, no ‘próprio’ de meninos e meninas (Pitangui, 1982).
A partir desses modelos, configura-se a violência contra as mulheres e a violação dos direitos humanos. “Consiste no uso da força física, psicológica ou intelectual para obrigar outra pessoa a fazer algo que não é da sua vontade, tolhendo a liberdade, incomodando e impedindo a vítima de manifestar seu desejo, sob pena de ser gravemente ameaçada ou até mesmo espancada, lesionada ou morta” (CFSS).
Este aspecto das relações humanas demonstra o grau de desigualdade e injustiça nas relações que as mulheres vivenciam.
Em 1994, a Organização dos Estados Americanos – OEA – realizou a Convenção de Belém do Pará onde foi assinada a “Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher”. Numa das cláusulas do documento foi registrado que: “A violência contra as mulheres é uma manifestação de relações de poder historicamente desiguais (...)” conduzindo à dominação e à discriminação, o que impede o pleno avanço da cidadania feminina.
Agora que as mulheres estão assumindo postos de governo em diversos países e, entre nós, chegando aos cargos majoritários de Estado, o tema merece ser abordado pela sua oportunidade. Mesmo porque não se mede a capacidade intelectual feminina pelo tamanho da saia que veste.
Publicado no Jornal “O Liberal”, Belém do Pará, 12 de novembro de 2009, pág. 2, 1º caderno
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[1] Luzia Álvares é doutora em Ciência Política. Coordenadora do GEPEM/UFPA
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