RES: [Mulheresdepartidos] Texto Luzia Álvares "O Liberal"

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Sexta Novembro 13 12:03:26 BRST 2009


Já estamos divulgando.
Bjs,
Beth Saar

-----Mensagem original-----
De: mulheresdepartidos-bounces em listas.planalto.gov.br
[mailto:mulheresdepartidos-bounces em listas.planalto.gov.br]Em nome de
Secretaria Nacional da Mulher
Enviada em: sexta-feira, 13 de novembro de 2009 11:15
Para: "Undisclosed-Recipient:;"@alpha.planalto.gov.br
Assunto: [Mulheresdepartidos] Texto Luzia Álvares "O Liberal"


 
 
Camaradas e companheiras
Estive, em Belém, participando do 1º Encontro Regional de Conselhos dos
Direitos da Mulher e integrei uma Mesa com a Prof. Luiza Álvares que
escreveu o artigo sobre o fato ocorrido na Uniban-São Bernardo, no "O
Liberal".
Encaminho para conhecimento e divulgação.
Um abraço
Liège Rocha





 

A SAIA QUE ENCURTOU A CIDADANIA

 

Luzia Álvares
<http://mail.google.com/mail/?ui=2&view=js&name=js&ver=IOwporIiDDE.pt_BR.&am
=!zxAF7izlYoC5Bd7y0fc6WsfCtpprIVpuB3sdFDJh1lSv#_ftn1> [1] 

 

Naquela manhã, 20 de outubro, como uma das tantas do seu dia-a-dia, a
estudante de Turismo Geisy Arruda, 20 anos, da Uniban (São Bernardo do
Campo), procurou uma roupa para ir à faculdade. Escolheu um vestido rosa do
tipo dos que sempre usava enquanto uma jovem do seu tempo. Olhou-se no
espelho e achou-se bonita. Pegou os cadernos, tomou a condução costumeira e
desceu próximo à universidade, adentrou a sala de aula onde seus colegas a
elogiaram pela beleza. O tom rosa do vestido, a saia curta e o corpo da
jovem eram os complementos que formavam um tipo de estética que a tornava
diferente de tantas com saias de diversos comprimentos, calças colantes,
shorts ou outra indumentária que sempre faz a opção dos jovens. Fora da
sala, entretanto, outros olhares trataram essa diferença com xingamentos,
humilhações e acusação de estar provocando.....os colegas homens. Cerca de
700 alunos tumultuaram a escola ofendendo-a moralmente e ameaçando-a de
outras violências. Geisy teve que se protegida sendo escoltada para fora do
prédio pelos policiais chamados para apaziguar a “onda”. Mas antes teve que
colocar sob o belo vestido, um jaleco branco. 

“Por que incomodou tanto? Eu não fiz nada”, disse a jovem, “sempre me vesti
assim”. Contraditoriamente, a opinião de um sociólogo sobre esse fato
imperou sobre a versão da garota: “Realmente os trajes eram provocativos”.
Uma colega de Geisy reforçou: “ela se vestiu assim para provocar”. 

Poucos dias depois, a universidade da jovem agredida expulsou-a da
instituição acusando-a de “denegrir os bons costumes”. Mas, sob pressão da
sociedade, recuou da atitude formal, reintegrando-a.

Esse fato demonstrou que uma parte significativa da sociedade brasileira
ainda está vinculada ao pensamento patriarcal que define as normas sociais
para homens e mulheres, mantém a medida dos costumes tradicionais e delineia
o verdadeiro processo das relações sociais hierarquizadas entre os gêneros.
O que se viu através do vídeo que circula na internet foi uma explosão de
violência e brutalidade em torno da jovem supostamente “mal vestida”. 

Uma atitude de violência evidencia as expectativas de que a representação do
masculino e do feminino corresponde às funções esperadas desses sujeitos aos
quais foram atribuídos papéis específicos. O homem incorpora a figura do
macho, forte, isenta de instintos, emoções e sensibilidade. A mulher se
vincula a uma imagem sensível, honesta, generosa, perspicaz. Essa
ambivalência é garantida pelo pacto de dominação, cujas práticas incorporam
o discurso enunciado desse domínio em valores contrários de
fragilidade-força.

            O modelo feminino é talhado pelos papeis de mãe e de esposa, com
atividades de gestão da casa, dos filhos e do marido. O homem será visto
como o pai e o marido, provedor das necessidades da família, daí ser
considerado o chefe. Esse par mantém idealizada uma relação que determina o
comando e a subordinação através dos costumes que se institucionalizam em
práticas determinadas para uns e outros. 

            Se o trato com as crianças, a limpeza da casa (as tarefas
domesticas) diz-se que são próprias da mulher, o modelo masculino é livre
para as decisões, para o controle, assumindo a autoridade de chefe, no lar.
A divisão sexual do trabalho explora a desvalorização do trabalho doméstico
e o afastamento das mulheres do processo produtivo social. O homem
monopoliza o mercado de mão-de-obra, muitas vezes excluindo as mulheres de
áreas qualificadas, sintoma da deterioração da formação educacional e
profissional desse gênero. Legitima-se a assimetria sexual no âmbito das
relações concretas em nome do biológico, elemento universal hierarquizado
porque supostamente natural.

            “Essa essência, esta natureza, é, paradoxalmente, passível de
ser, a todo o momento, perdida e, para que tal não ocorra, a cultura se
mantém vigilante. Assim, ela deve ser constantemente aprendida, vigiada,
controlada. Perder a feminilidade ou a masculinidade é uma ameaça constante
e as regras para que tal não ocorra devem ser acatadas desde a infância nos
tipos de brincadeiras, nos ‘modos’, no ‘próprio’ de meninos e meninas
(Pitangui, 1982). 

A partir desses modelos, configura-se a violência contra as mulheres e a
violação dos direitos humanos. “Consiste no uso da força física, psicológica
ou intelectual para obrigar outra pessoa a fazer algo que não é da sua
vontade, tolhendo a liberdade, incomodando e impedindo a vítima de
manifestar seu desejo, sob pena de ser gravemente ameaçada ou até mesmo
espancada, lesionada ou morta” (CFSS). 

Este aspecto das relações humanas demonstra o grau de desigualdade e
injustiça nas relações que as mulheres vivenciam. 

Em 1994, a Organização dos Estados Americanos – OEA – realizou a Convenção
de Belém do Pará onde foi assinada a “Convenção Interamericana para
Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher”. Numa das cláusulas
do documento foi registrado que: “A violência contra as mulheres é uma
manifestação de relações de poder historicamente desiguais (...)” conduzindo
à dominação e à discriminação, o que impede o pleno avanço da cidadania
feminina.

Agora que as mulheres estão assumindo postos de governo em diversos países
e, entre nós, chegando aos cargos majoritários de Estado, o tema merece ser
abordado pela sua oportunidade. Mesmo porque não se mede a capacidade
intelectual feminina pelo tamanho da saia que veste. 

 

Publicado no Jornal “O Liberal”, Belém do Pará, 12 de novembro de 2009, pág.
2, 1º caderno 

 

 



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<http://mail.google.com/mail/?ui=2&view=js&name=js&ver=IOwporIiDDE.pt_BR.&am
=!zxAF7izlYoC5Bd7y0fc6WsfCtpprIVpuB3sdFDJh1lSv#_ftnref1> [1] Luzia Álvares é
doutora em Ciência Política. Coordenadora do GEPEM/UFPA


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